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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

24
Mai17

"Uma Utopia Reflexiva" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

Utopia

Marta é uma advogada de sucesso. Pelas suas mãos já passaram inúmeros processos judiciais bastante complexos; mas ela sempre mostrou não ter medo de nada e enfrentava as salas dos tribunais, os juízes e os advogados dos arguidos como mais ninguém o conseguiria fazer. Com garra, com afinco, determinada, ciente sempre das suas convicções e das suas ideias. Nunca saía de uma sala de audiências sem deixar bem claros os seus pontos de vista.
 
É uma jovem mulher reconhecida e prestigiada; no entanto, apesar do enorme mérito no exercício da sua profissão, Marta esconde um sonho dentro dela. A advocacia foi um caminho imposto pelos pais quando ela terminou o ensino secundário. O pai queria a todo o custo que a filha seguisse as suas pisadas; mas, Marta trazia consigo – desde a adolescência – o sonho de ser pintora. Na escola, as suas aulas preferidas eram as de Educação Visual e Tecnológica, era das poucas disciplinas onde os intervalos pareciam ser tempo perdido. Ficava horas fechada na sala a desenhar.
 
Quando terminou o secundário já tinha decidido o seu futuro: queria seguir artes. Queria ir estudar desenho. Queria ser pintora como a Paula Rego. Mas depressa os pais a fizeram descer à terra, ser pintora não era profissão. Era um hobbie. Ela tinha que esquecer a pintura e escolher um curso a sério, que lhe desse dinheiro, vida futura e estabilidade e foi assim que o pai lhe impôs a advocacia. 
 
Marta sentiu-se sem chão. Não era nas salas de audiência que ela era feliz, era junto de telas e pincéis. Se o pai pensava que ela iria desistir da pintura, estaria redondamente enganado. Há amores pelos quais nunca se desiste e a pintura era o seu maior amor. Entrou em advocacia numa das mais conhecidas universidades do país, com boas notas; no entanto, sempre que tinha um tempo livre fugia para o sótão transformado em atelier de pintura. Pintava noite dentro.
 
Terminou o curso no tempo estipulado, com uma boa média, conferindo brilho aos olhos de seu pai. Três meses depois de acabar o curso já estava a fazer um estágio com previsão para ficar a trabalhar no escritório de advogados. No entanto, Marta continuava com o bichinho da pintura e por vezes, perdia-se a ver galerias de arte: em Portugal e no estrangeiro. Sonhava acordada com o dia em que iria sustentar-se com o seu talento.
Quase há uma década a trabalhar como advogada e a receber os maiores elogios, decidiu ir ao sótão recuperar os seus quadros, estava na altura de – finalmente – lutar e de tentar ir atrás do seu sonho: a pintura. Sentou-se ao computador, actualizou o seu portefólio e enviou-o: a título de brincadeira, para algumas galerias portuguesas. Podia até nem acontecer nada, mas… E se acontecesse? Não custava tentar…
Os amigos de Marta faziam por gozar com o seu ar sonhador aos quase 35 anos. Já não tinha idade para andar a brincar aos sonhos de adolescente. Ela pintava muito bem, era um facto, mas jamais teria hipótese perante a forte concorrência que existia hoje em dia em qualquer área relacionada com artes e isso fazia-a sentir-se triste pelo facto de sentir que só ela própria acreditava no seu verdadeiro valor. Ainda assim, nada a demovia. Nada a fazia desistir. Enquanto esperava por respostas continuou a pintar novos quadros, novas perspectivas, experimentou novos materiais e novas técnicas. Era assim que era feliz.
 
Quase um mês depois, num dia em que estava “afogada” em trabalho com um processo que parecia não querer dar-lhe tréguas, viu o impensável. Saltava à vista na sua caixa de correio electrónico um email vindo de uma galeria de arte. Marta nem queria acreditar. Parou tudo o que estava a fazer e focou-se naquele email que lhe dizia que tinham ficado impressionados com a qualidade do seu trabalho. Eram pinturas irreverentes, feministas, minuciosas, que mostravam o lado mais belo da pintura. Eram essencialmente quadros particularmente diferentes e como tal gostariam de convidá-la a expor na sua galeria no âmbito de um festival de pintura que iria ser realizado dali a um mês. Difícil mesmo era aquelas palavras não lhe alimentarem o ego e não lhe encherem o coração de alegria e felicidade, sentia-se nas nuvens, desassossegada. Em desconcentração máxima para tudo o resto.
 
Pegou no telefone e contou logo a novidade aos pais e aos amigos mais chegados. Quer uns, quer outros ficaram estupefactos; mas felizes por ela nunca ter desistido do seu sonho e sempre ter acreditado. Por entre os stresses da advocacia e de um processo longo, Marta tentava a todo o custo focar-se na organização da sua exposição, passava horas no sótão a fazer a selecção dos melhores quadros, o grande dia estava prestes a chegar.
 
Uma semana e meia depois estava tudo pronto. Que orgulho tremendo que sentia por nunca ter desacreditado no seu talento. Nem tinha palavras para descrever quão preenchido estava o seu coração por ver finalmente os seus quadros expostos, numa galeria de arte. Tinha enviado convites a todos os amigos e conhecidos e na galeria a sua exposição estava em destaque por todo o lado. Era o seu sonho tornado realidade. Naquele dia tão cheio de pessoas, de abraços, de felicidade e outras tantas coisas boas, a galeria estava cheia de pessoas que admiravam incrédulas os seus quadros. Os seus filhos feitos de tintas e pincéis, de memórias e recordações e inúmeras misturas de sentimentos.
 
Por entre cumprimentos, conversas, felicitações e sorrisos, os seus quadros foram sendo vendidos. Inacreditável, pensava ela. Aqueles que – no passado – gozavam com o seu ar adulto sonhador, eram agora aqueles que quase se disputavam pela compra de um quadro seu. Não deixava de ser irónico. Do nada todos tinham despertado para o seu talento depois de tempos infinitos de olhos fechados. Às vezes o mais importante não é aquilo que os outros aspiram para nós, mas sim aquilo que vai dentro do nosso coração e da nossa alma.
 
No final do dia, sentia-se exausta, mas realizada. O director da galeria felicitou-a pelo sucesso da exposição e já estava convidada para participar numa exposição com outros pintores em breve. Chegou a casa estafada, descalçou os sapatos de salto, vestiu uma indumentária confortável e dirigiu-se à casa-de-banho para o ritual de desmaquilhagem. O espelho devolvia-lhe uma imagem mista: uma advogada de sucesso de paleta e pincéis na mão. 
 
Precisava de parar para decidir o seu futuro. Não queria desiludir o seu pai desistindo da advocacia, mas por outro lado queria viver o seu sonho de menina. Estava acontecer agora e não sabia quando se repetiria.
 
Poderia a advocacia ser desenhada e pintada com uma mistura de cores e novas técnicas.
 
Era isso que estava prestes a descobrir…

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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