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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

29
Mar18

"Pedras"

João Jesus e Luís Jesus

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Estavam lá desde sempre. Imortais. Vigilantes.

Não conseguiam falar. Apenas olhavam. Olhavam com os seus olhos fundos e sábios, de quem está na vida há muito, muito tempo. 

Estavam abandonadas. Ninguém lhes dá algum uso. Já viram gente a chegar ao mundo e gente a ir-se embora. Já viram catástrofes, já viram milagres, sempre no mesmo sítio, quietas.

Já provaram sangue das crianças descuidadas que caiam em cima de si. E depois ninguém limpava e ficava lá marcado durante dias, até a água lhes tocar.

Eram pedras. Pedras solitárias.

Nem elas próprias sabiam o que podiam fazer consigo mesmas. Apenas ficavam quietas, pois não conseguiam mexer-se. 

Falavam por pensamento umas com as outras, mas mesmo assim sentiam-se sozinhas.

Só que nesses momentos, todas tinham um truque. Olhavam com os seus olhos de binóculos para dentro das casas das pessoas que viviam perto de si. 

O que viam deixava-as feliz consigo mesmas. Já não se sentiam mais sozinhas, sentiam-se unidas umas com as outras, pois o que viam era gente agarrada a coisas estranhas que davam luzes e piscavam. Estavam sempre calados, sempre a olhar para as maquinetas. Pareciam pedras, mas não como elas.

Sorriam mentalmente umas para as outras e ficavam quietas como sempre. A olhar. Sozinhas mas acompanhadas.

 

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07
Mar18

"Life Is A Journey" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Por vezes a vida prega-nos partidas, sem estarmos à espera. A rotina e o contacto com as mesmas pessoas todos os dias começam a cansar, o ser sempre tudo igual e tão mecanizado, há todo um frenesim que nos desassossega, o cansaço e a falta de paciência e de descanso acumulam-se, o stress do dia-a-dia inquieta-nos a alma. A falta de tempo para as coisas que gostamos de fazer torna tudo mais difícil e à nossa volta o sol parece querer deixar de brilhar. Fica tudo cinzento e sem brilho.

Por vezes encontro-me neste estado de espírito, onde parece que quero e que me apetece tudo mas ao mesmo tempo não quero nem me apetece nada, acho que é exaustão. Exaustão de tudo e de nada, de necessitar de tempo e de espaço para respirar, para acalmar, para fazer outras coisas, para estar sozinha só comigo. Necessito muito desse tempo e desse espaço que por vezes sinto muito a sua ausência.

A vida é uma jornada. E a vida de adulto é uma seca e não nos traz vantagens nenhumas, é tão bom ser-se criança e viver num mundo só nosso onde não existe a palavra crise, onde ainda não se pensa em ter que resolver problemas todos os dias, onde não há rotinas pré-definidas, onde não há stress. É quando se começa a crescer que tudo começa a mudar, a nossa vida começa a ficar sem fôlego, começamos a ter responsabilidades chatas e a entrar numa espécie de labirinto diário do qual umas vezes sabemos sair para respirar e outras vezes não. Andamos, andamos, andamos, mas não saímos do mesmo sítio.

Viver. Essa palavra que contempla tudo e não contempla nada. O que é viver afinal? O que é que viver significa? Viver tem que se desconstruir nos seus fragmentos únicos e essenciais; viver é como andar de para-quedas, mergulhar no vazio de braços abertos e com o vento a balançar o pouco daquilo que somos.
Viver. Não são só momentos, pessoas, gestos, sentimentos e objectos. Viver. Tem que ser tudo. A vida. O mundo. Um todo. Nada.

E Ele.

Há sempre pessoas que conseguem mudar-nos e mudar a nossa vida por completo, até nestas alturas. Pessoas diferentes. Pessoas especiais. Pessoas que marcam e nos marcam incrivelmente. Bastam para isso gestos básicos, como uma simples gargalhada daquelas que eu adoro e que só ele consegue provocar em mim e simples 5 minutos de conversa. Sobre tudo e outras coisas. Sobre a vida e como fazer dela uma estrada única.

A vida é Ele. Ele é a minha vida. Não há vida sem ele.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

06
Jan18

"Se For Um Sonho"

João Jesus e Luís Jesus

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Dei por mim a pensar.

Será que estou a sonhar? E se tudo isto não passar de um grande sonho, com pesadelos dentro? 

Será que a realidade é pior que isto? Será que me atrevo a acordar?

Se tudo isto for um sonho, agradeço à minha linda cabeça pela enorme história que está a criar. Tem os seus pontos altos e também os seus pontos baixos, mas acho que é uma história linda de ser contada.

Não sei porquê, acho que posso mesmo estar a sonhar! Principalmente quando acontece algo demasiado bom, julgo que não pode ser realidade!

Quando presencio momentos maus, oh por favor, não quero mais nada do que acordar na minha cama e dizer a mim próprio que tudo isso era um sonho, um sonho muito mau. Um pesadelo!

Gostava de saber como é a realidade, como é a vida sem estar a sonhar. Será mágica? Será terrível? Será tão má que apenas quero sonhar com algo melhor?

Não sei! Só sei que quero mais disto! Quero sentir-me vivo. Quero sentir mais do mesmo! Quero ter mais surpresas. Quero continuar a viver onde eu amo estar.

Se isto tudo for mais um sonho muito, muito longo, quero apenas continuar a sonhar.

 

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05
Jan18

"Viver é Não Saber Que Se Vive" - Florbela Espanca

João Jesus e Luís Jesus

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Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face... E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver? 


Florbela Espanca, in "Diário do Último Ano" 

01
Nov17

"Estranha Forma de Vida" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Hoje foi dia de mais um dos nossos encontros. Desde a adolescência que todas as semanas, eu, a Babi, a Sílvia, e a Nonô, às Quartas-feiras à noite, fazemos a nossa noite de mulheres. Nestas nossas noites, não é permitida a entrada a namorados ou maridos, deixamo-los em casa sozinhos a suspirar noite dentro pela nossa chegada e a imaginarem como são estas nossas noites exclusivamente femininas. Nunca lhes revelamos nada, fica tudo no segredo dos Deuses, só nós é que sabemos todos os detalhes. E vamo-nos divertir… Sozinhas.

O trabalho é outra daquelas coisas que não é convidada para a festa, nestas nossas noites, reunimo-nos e falamos de todos os assuntos de mulheres possíveis e imaginários excepto de coisas de trabalho. É mesmo expressamente proibido, mas nem sempre é fácil evitar, muitas vezes caímos no erro de falar de coisas relacionadas com o nosso trabalho. Sabem como é, faz parte do dia estarmos constantemente a falar de trabalho, é daquelas coisas que se entranha facilmente na pele. E depois não conseguimos desligar, e os assuntos acabam a fugir sempre para o mesmo.
Precisamente por causa do trabalho, a nossa noite feminina de hoje esteve mesmo para não se realizar, algo que nunca tinha acontecido até hoje. Mas entretanto a Babi ligou-nos e disse que precisava muito que nos encontrássemos hoje, que tinha uma coisa muito importante para nos contar. 
Tentamos reorganizar-nos e lá fomos, até ao bar do costume…

– Então o que é se passa?!
– Lembram-se das minhas férias em Ibiza?! Eu traí o Filipe com o Personal Trainer do ginásio do hotel.
Caiu como uma bomba.
– Tu o quê?! Enlouqueceste?!
– Talvez… Acho que não fui capaz de resistir. E por isso é que acabei tudo com o Filipe, antes fugir do que remediar.
– Tu acabaste tudo com ele para não teres que lhe contar a verdade?!
– Sim. É melhor assim. Para além disso o mal já está feito e não há volta a dar. Mais vale ele nem se quer vir a saber.
– Tu é que sabes, mas acho que fazes mal. Virares as costas aos problemas nunca foi uma boa solução. Há que encarar a vida de pé e de frente.

E dois dias depois… O Filipe acabaria por descobrir tudo.

 

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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