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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

23
Dez17

"(Des)Preparada"

João Jesus e Luís Jesus

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Ia com os seus relatórios nos braços, enquanto caminhava mais uma vez pelo corredor no hospital.

Estava a ter um dia horrível! Montanhas de trabalhos, muitas consultas e tinha uma enorme dor de cabeça.

Andava pelo corredor, quando ouviu um grito. Parou de imediato.

Ouviu o grito outra vez. Reparou que este som vinha da sala mais próxima de si.

Espreitou. Numa cama, perto da janela, estava um senhor já velho, completamente sozinho. 

O homem voltou a gritar. Pensou que uma enfermeira já devia vir, mas olhou em volta e reparou que o corredor estava completamente vazio.

O homem gritou ainda mais alto. Sentiu que devia ir para perto dele.

Aproximou-se e olhou para o senhor.

O senhor não estava a olhar para ela e apenas se abanava todo. Gritava de vez em quando e ela arrepiava-se de cada vez que ouvia o grito. 

Deu uma olhadela rápida ao relatório da médica dele, que estava no fundo da cama. Quase não tinha nada, não sabia como o ajudar.

Puxou uma cadeira e sentou-se perto do velho.

- Calma. Estou aqui. - Disse ela calmamente, segurando-lhe na mão

O velho parou de se mexer e de gritar, mas não olhava para ela. Com a outra mão, ela tocou na campainha para chamar uma enfermeira.

- Já vamos ver o que se passa consigo. - Disse-lhe

O velho começou a respirar mais devagar. Tocou outra vez na campainha.

- Tem de ser forte. Já está a chegar ajuda. - Disse, um pouco mais nervosa

Notou que uma lágrima enorme saia dos olhos do velho. Imediatamente, subiram-lhe as lágrimas aos olhos. Não gostava de ver gente abandonada, à beira das portas da morte.

Limpou-lhe a lágrima com a mão. 

- Vai ficar bem de certeza. - Sussurrou-lhe

Ele pareceu sorrir e fechou os olhos.

As enfermeiras chegaram e correram para o velho. 

Elas colocaram-lhe os dedos no pescoço. Muito devagar, após repetirem o mesmo passo várias vezes, olharam para a médica.

- Está em paz. Já partiu. - Disseram-lhe

As lágrimas saíram-lhe dos olhos. Não estava preparada. Não queria ver ninguém a morrer.

 

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12
Dez17

"Desconhecidos"

João Jesus e Luís Jesus

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Estava sentado no habitual banco da paragem do autocarro.

Tinha fome. Tinha muita fome.

Esperava ali todos os dias para que alguém com bom coração, lhe desse alguma coisa. Esperava ali pela sua família, que lhe prometera que iria voltar para junto dele. Eram mentirosos.

Levantava-se quando a geada o acordava e deitava-se quando acabavam os horários dos autocarros. A paragem era a sua casa.

Por vezes, alguém passava perto dele e olhava-o com pena, mas nunca lhe dava nada. Muitos eram aqueles que se riam dele ou que lhe faziam caretas através do autocarro.

Estava outra vez sentado na paragem, a olhar para as pessoas. Não tinha coragem de pedir nada a ninguém. Limitava-se a olhar, à espera que alguém lhe visse através dos olhos o que ele precisava.

Um homem, com cerca de sete crianças chegou à paragem. 

Deve ser um pai de uma grande família, pensou o homem. Ele também já assim fora.

O homem tinha uma cara enorme de cansado. Tratar de muitas crianças era assim, desgasta-nos mas deixa-nos uma enorme felicidade por dentro.

O homem olhou para ele. A sua cara encheu-se de preocupação.

De repente, ele abriu a sua mochila enorme e tirou um grande embrulho. 

- Tome. - Disse ele para o homem, estendendo-lhe o embrulho

- Não, não. - Recusou o homem, empurrando o embrulho - O senhor vai precisar disso.

Ele sorriu, mas voltou a dar o embrulho ao homem, que desta vez nada disse. 

- E isto pode ajudá-lo.

Colocou-lhe na mão um grande maço de notas. O homem ficou surpreendido e quando se preparava para entregar o dinheiro ao seu dono, chegou o autocarro.

Eles despediram-se dele e acenaram do autocarro. 

O homem sorriu e começou a desembrulhar o embrulho.

 

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29
Nov17

"Vida Longa"

João Jesus e Luís Jesus

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Levou a saca do crochê num braço e o seu banco de madeira, já velho, no outro braço.

Levou-o para perto da sua melhor amiga. A sua colega das coscuvilhices. 

A sua laranjeira. Aquela que o seu pai, há muitos, muitos anos, plantara só para ela.

Pousou o banquinho e encostou a saca a uma pedra. Subiu para o banco e em bicos de pés, tentou alcançar uma laranja.

- Andá lá Cotilde! Dá uma ajudinha! - Grunhiu

De repente, como fazia todos os dias, pareceu-lhe que a árvore desceu um pouco mais o seu ramo, onde tinha uma laranja madura.

- Que seja boa, como todas as outras, minha velhota. - Disse a velhinha, dando uma palmada na casa rija da laranjeira

Sentou-se no banco a descascar a laranja. Provou um gomo do delicioso fruto e sorriu.

Aquele sabor. Aquele sabor tão familiar.

- Podes estar velhinha como eu, mas continuas a ser melhor que as outras todas. - Disse-lhe, sorridente

A laranjeira pareceu sorrir. A velha sabia isso por que quando a elogiava, esta levantava mais as folhas, como num sorriso.

Contou-lhe as coscuvilhices todas da aldeia enquanto fazia o crochê. 

A laranjeira ouvia tudo, mas por ser tão velha, por vezes adormecia, mas a velhinha nunca dava conta.

Escureceu e a velhinha arrumou o banco e colocou o saco no braço. 

- Bem, até amanhã, Cotilde! Espero encontrar-te de boa saúde aqui, no mesmo sítio de sempre. - Disse-lhe docemente

A laranjeira despediu-se silenciosamente e calorosamente da sua amiga, quase irmã.

Todos os dias, bons ou maus, elas passavam o tempo uma perto da outra. Nem a velhice as separava.

 

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08
Out17

"Momentos Simples"

João Jesus e Luís Jesus

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Estava sozinho.

Sentia-se cansado. Velho. Inútil. E cheio de dores.

Achava que estava nos seus últimos momentos. Ele também não queria viver muito mais.

Não tinha ninguém no mundo. E consigo carregava algo que o matava aos poucos. Uma doença horrível.

Por causa desta, ele dependia de uns pequenos tubos no seu nariz. Se retirasse aquilo durante muito tempo, morreria ao fim de algumas horas.

Preso na cadeira de rodas, o homem sentia-se triste. Triste de não poder andar, de não poder viver em condições e de não ter família. Ele queria ter alguém para cuidar. Mas não passava de um velho.

Devagarinho, mexeu a cadeira de rodas até à porta de entrada. Com dores, abriu a porta.

O céu estava negro. Ia chover em breve. 

Era o momento perfeito. Começaram a cair as primeiras gotas de chuva. Há tanto tempo que ele não via chover! Há tanto tempo que não via algo tão belo.

Então, decidiu que queria morrer ali. Assim quieto a olhar para a chuva. 

Retirou os malditos tubos do nariz e respirou. Respirou o ar puro, o ar gelado mas vivo, que queima nas narinas quando entra. 

Sorriu. O mundo estava bonito.

E com um sorriso enorme, ficou até ao fim da chuva, imóvel na cadeira de rodas, à espera que alguém o levasse embora.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

letrasaventureiras@sapo.pt

Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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