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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

14
Jan18

"Risadas"

João Jesus e Luís Jesus

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Bruno entrou na sala pequena e mal iluminada.

Sabia o que ia acontecer. Era inevitável.

Aproximou-se da cama perto da janela, que tinha a persiana corrida. Lá estava o seu tio, a pessoa que ele mais gostava. 

- Oh, meu Bruninho. - Suspirou ele mal o viu

Bruno sorriu, embora sentisse algo estranho dentro de si, como uma serpente a mexer-se. Sabia que iria começar a chorar em breve.

- Olá, tio Miguel. - Disse

O tio deu uma pequena gargalhada. 

- Pensava que já não irias ver o teu velho tio antes de morrer. - Disse ele

Bruno sentiu o coração a apertar-se. Tinha de se controlar, ou iria chorar mesmo à frente do tio.

- Não pense nisso. Eu iria vir de qualquer das maneiras. - Sussurrou ele e sentou-se perto do tio

O tio tinha lágrimas nos olhos.

- Tenho muito orgulho em ti, Bruninho. - Revelou

Bruno apertou a mão do tio.

- E eu gosto muito de si, tio. - Disse-lhe - Nunca se esqueça de mim, esteja onde estiver, ok?

As lágrimas ameaçavam sair.

- Prometo que não me esqueço. - Combinou - Mas acho melhor contares-me alguma piada, daquelas melhores que tu sabes, para eu nunca me esquecer dos melhores momentos contigo.

Bruno não estava com cabeça para aquilo. Mas era o seu tio, era o seu último pedido, tinha de o cumprir.

- Estou a pensar numa tio... - Informou

- Demora o tempo que precisares, meu filho.

O tio apertou-lhe mais a mão. Não queria despedir-se do seu sobrinho, o filho que ele nunca teve.

Bruno lembrou-se da piada e contou-a ao tio devagarinho, tim-tim por tim-tim. 

Muito rapidamente o tio se começou a rir. Riu-se como Bruno nunca o ouvira. Continuavam de mãos dadas enquanto os dois se riam.

Bruno notou numa lágrima que deslizava pelo rosto do tio. Ia ter saudades dele.

O tio começou a parar de se rir e a fechar os olhos. Bruno não o impediu, sabia que a hora tinha chegado.

O tio fechou os olhos, a lágrima caiu para os lençóis da cama e ele nunca mais proferiu nada. Tinha acontecido.

Bruno levantou-se, sem largar a mão do tio e beijou-lhe a cabeça. 

 

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23
Dez17

"(Des)Preparada"

João Jesus e Luís Jesus

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Ia com os seus relatórios nos braços, enquanto caminhava mais uma vez pelo corredor no hospital.

Estava a ter um dia horrível! Montanhas de trabalhos, muitas consultas e tinha uma enorme dor de cabeça.

Andava pelo corredor, quando ouviu um grito. Parou de imediato.

Ouviu o grito outra vez. Reparou que este som vinha da sala mais próxima de si.

Espreitou. Numa cama, perto da janela, estava um senhor já velho, completamente sozinho. 

O homem voltou a gritar. Pensou que uma enfermeira já devia vir, mas olhou em volta e reparou que o corredor estava completamente vazio.

O homem gritou ainda mais alto. Sentiu que devia ir para perto dele.

Aproximou-se e olhou para o senhor.

O senhor não estava a olhar para ela e apenas se abanava todo. Gritava de vez em quando e ela arrepiava-se de cada vez que ouvia o grito. 

Deu uma olhadela rápida ao relatório da médica dele, que estava no fundo da cama. Quase não tinha nada, não sabia como o ajudar.

Puxou uma cadeira e sentou-se perto do velho.

- Calma. Estou aqui. - Disse ela calmamente, segurando-lhe na mão

O velho parou de se mexer e de gritar, mas não olhava para ela. Com a outra mão, ela tocou na campainha para chamar uma enfermeira.

- Já vamos ver o que se passa consigo. - Disse-lhe

O velho começou a respirar mais devagar. Tocou outra vez na campainha.

- Tem de ser forte. Já está a chegar ajuda. - Disse, um pouco mais nervosa

Notou que uma lágrima enorme saia dos olhos do velho. Imediatamente, subiram-lhe as lágrimas aos olhos. Não gostava de ver gente abandonada, à beira das portas da morte.

Limpou-lhe a lágrima com a mão. 

- Vai ficar bem de certeza. - Sussurrou-lhe

Ele pareceu sorrir e fechou os olhos.

As enfermeiras chegaram e correram para o velho. 

Elas colocaram-lhe os dedos no pescoço. Muito devagar, após repetirem o mesmo passo várias vezes, olharam para a médica.

- Está em paz. Já partiu. - Disseram-lhe

As lágrimas saíram-lhe dos olhos. Não estava preparada. Não queria ver ninguém a morrer.

 

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17
Dez17

"Vem Ter Comigo"

João Jesus e Luís Jesus

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Agarrou no seu telemóvel, que estava no bolso do seu casaco.

Tinha os olhos molhados, tinha um grande vazio dentro de si. Precisava de se animar um pouco.

Entrou na aplicação das mensagens, percorreu a lista e encontrou o nome. Encontrou o nome daquela pessoa especial.

Carregou no nome e escreveu uma pequena mensagem. Pediu-lhe que viesse a sua casa o mais rápido possível. 

Esperou e poucos minutos o telemóvel vibrou. Agarrou imediatamente nele.

Oh não! Estava a ligar-lhe. Sem demoras, atendeu a chamada.

- Sim? Lúcia? - Perguntou a outra pessoa

- Olá. 

- Oh! - Suspirou - Pensei que estava algo errado. O que se passa?

Lúcia respirou fundo.

- Por favor vem cá a casa! Preciso de falar com alguém. - Choramingou

Ouviu-se um suspiro do outro lado da linha.

- Lúcia... Era suposto estarmos de relações cortadas! Supostamente nós estamos zangadas. - Disse ela

- Ok! Mas Beatriz, por favor, vem cá! Vamos esquecer essa estupidez! Vem cá! Preciso de falar! Vem ter comigo. Somos melhores amigas. - Disse ela, enquanto mais lágrimas rolavam pela cara abaixo

- Ok Lúcia. Estou aí em dez minutos. Não faças nada estúpido. - Disse Beatriz, cuidadosamente

- Obrigada. - Sorriu - Obrigada por seres minha amiga. 

- Somos melhores amigas não é? Devemos apoiar-nos uma à outra. - Disse Beatriz um pouco mais animada

Lúcia sorriu e esperou pela amiga, sentada na cama.

 

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02
Dez17

"Choro"

João Jesus e Luís Jesus

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Agarrou numa cebola. Na melhor que via no seu cestinho feito de madeira.

Tirou a sua melhor faca da gaveta e começou o trabalho.

Devagarinho cortava a cebola em pedaços pequenos, atirando-os de seguida para a panela.

Os olhos ficaram cada vez mais molhados e depressa começaram a deitar lágrimas.

Mas não era por causa da cebola! Ela cortava a cebola para quem a visse, não suspeitar. 

Chorava da vida. Chorava de todos as coisas más que aconteciam. Precisava de chorar.

A cebola já tinha sido cortada. Agarrou noutra, precisava de deitar tudo cá para fora. Precisava de chorar mais.

Acabou a segunda cebola. Já lhe doiam os olhos. Resolveu parar.

Deitou o resto para a panela e colocou azeite, deixando-a no fogão, para ferver.

Chorar fez-lhe bem. Sentia-se melhor. Mais leve.

De repente entrou o marido pela cozinha.

- O que estás a fazer? - Perguntou ele com a sobrancelha arqueada

Limpou as lágrimas com a manga.

- Nada. Só estou a fazer o almoço. - Mentiu

- E essas lágrimas? 

- Oh! Nada! Só é a cebola. - Sorriu

 

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24
Nov17

"Continuar"

João Jesus e Luís Jesus

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Sentou-se na outra ponta do pavilhão. 

Sentou-se onde quase ninguém a via. Onde não reparavam nela.

Cruzou as pernas e colocou os cadernos e os livros de Ciências em cima destas. Tinha teste daqui a uma hora e precisava de rever a matéria.

- Ahahaha! Olha para aquela ali! - Gritou uma rapariga no fundo do pavilhão

Muito devagar, espreitou por cima dos óculos para ver a autora daquela fala. Pff! Era a mesma rapariga de sempre. Aquele que todos eram amigos dela.

- A estudar, Tartaruga? - Perguntou a rapariga, quando se aproximou dela

Ela olhou discretamente para ela.

- Deixa-me em paz. - Disse baixinho

A rapariga riu-se para as suas amigas.

- Não ouvi nada! Repete se tiveres coragem! - Disse a ela a altos berros para que todos a ouvissem

Ignorou-a. Continuou a olhar para os seus apontamentos.

- Não sabes que é falta de educação não responder a uma pergunta? - Picou

- Não se a pergunta for de mau gosto. - Respondeu-lhe, muito corada

A rapariga ficou pasmada.

- Bem, vamos deixar a Tartaruga aqui a estudar. - Revelou - Hum, apenas quero ver qual é a matéria que vai sair para o teste.

Antes que pudesse reagir, a rapariga arrancou-lhe o caderno das mãos e levantou-o no ar. 

- Que letrinha tão bonita! Olha as folhas a serem puxadas para o chão.

Muito rapidamente, rasgou uma página do caderno. Atirou-a para o chão e riu-se com as amigas.

- Pára! - Gritou-lhe

As outras rasgaram mais algumas páginas e quando deram por si, já não restava nada do caderno.

- Xauzinho Tartaruga! Bons estudos! - Disseram maliciosamente e desapareceram

Correu para as folhas rasgadas aos pedaços no chão. Sentia-se triste e enervada.

Dos seus olhos saiu uma lágrima. Passou a manga nos olhos para a secar, pois não queria que a vissem chorar.

Respirou fundo e agarrou nas folhas rasgadas. Talvez ainda tivesse arranjo.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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