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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

03
Fev18

"Fuligem"

João Jesus e Luís Jesus

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A sua lanterna iluminava mal o caminho à sua frente.

Cheirava a carvão e o ar era pesado. Detestava estar ali, mas tinha de ser!

Empurrou o carro mais para a frente. Nem sabia o porque de ainda trabalhar ali, não se via nenhum pedaço de nada em lado nenhum há muito tempo.

- Não há nada aqui e nem temos salários de jeito. Juro que qualquer dia saio daqui. - Disse o seu colega

Era já de noite, mas debaixo de terra era um calor enorme, como o dia mais quente de verão.

- Então? Não estás farto de estar aqui? - Perguntou o colega

Olhou para ele.

- Família. Somos muitos, precisamos de sustento. Nestes momentos vale tudo. - Revelou

O homem fez um expressão de pena. 

- E o que te aconteceu para vires parar aqui? Não tens jeito de ser mineiro. 

Sorriu. Tinha acertado em cheio.

- Empresário. Enganaram-me e perdi tudo. É o risco dos negócios. - Disse, olhando em frente

- Isso é que é pior. - Disse o homem

O colega parou o carro dele e aproximou-se dele, colocando-lhe a mão no ombro.

- Já passaram aqui muitos homens, alguns quase iguais a ti, mas nenhum conseguiu nada, desistiam de trabalhar aqui e passavam-se a andar. Eu aposto em ti, tu vais conseguir. Sinto isso. - Revelou o homem

Sorriu para o homem e deu-lhe uma palmada nas costas.

- Obrigado, a sério.

Sorriram e continuaram a andar com o carro de carvão.

De repente, suspirou.

- Olha! - Apontou para a frente

- Onde?

Continuou a apontar em frente e aproximou-se com o colega.

- Não acredito.

Ficou perplexo com o que estava na sua frente.

- Tanto carvão!

Na sua frente, erguia-se uma enorme parede de carvão.

 

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21
Out17

"A Chegar a Casa"

João Jesus e Luís Jesus

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 O vento batia-lhe na cara com uma força imensa.

Era a segunda vez que andava de mota nesse dia. Agora queria apenas ficar em casa por umas horas!

O capacete estava guardado na mala da mota, debaixo do banco. 

Gostava de sentir o vento na cara, o casaco a voar. 

Agora não ligava a mínima para isso. Queria apenas chegar a casa, ver a sua filha e a sua mulher à espera que chegasse. 

Estava quase a chegar! Estava mesmo quase a chegar.

O semáforo ficou vermelho, então parou. Impaciente, batia com os dedos no guiador da mota. 

O sinal nunca mais mudava. Permanecia vermelho. 

De repente, um clarão de luz apareceu do outro lado da rua. Um clarão enorme.

Era um carro. Parecia descontrolado. 

Ignorou, não deveria chegar perto de si. O sinal continuava vermelho.

De repente, o carro passou por cima dos passeios e chegou perto de si. Viu a pessoa que estava dentro dele, com os olhos arregalados de pavor. Viu o sinal ainda vermelho.

De repente, caiu ao chão com o impacte. Sentiu a testa abrir. Sentiu dor. Sentia um peso por cima.

E o sinal vermelho mudou para verde.

 

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21
Set17

"Camada Gelada"

João Jesus e Luís Jesus

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 Os dedos fininhos envolviam o cântaro. Estava muito frio.

Ainda mal se via a luz do dia e já ela descia a vila, para ir até à fonte. Tinha de ser! Não havia outro remédio.

Via que havia gelo. Muito gelo sobre as plantas, a estrada e também sobre os seus dedos. Não os sentia, pois estavam congelados.

Descia a estrada com cuidado, para não escorregar. Da sua boca saíam grandes nuvens brancas. 

Faltavam cerca de duas horas para o ínicio da escola e ela ainda tinha de buscar água para a sua senhora, alimentar os animais e limpar a casa. Era muito trabalho para pouco tempo.

Mas ela tinha de fazer isso! Pois os seus pais dependiam do seu dinheiro, pois estavam velhos e doentes para trabalhar. 

Chegou à velha fonte e abriu a torneira. Não saiu nem gota. O bico estava congelado. 

Envolveu o dedo no seu casaco e tentou partir o gelo. Conseguiu ao fim de alguns segundos.

A água jorrava para o cântaro. Havia vapor em volta dela. Até a água gelada da nascente estava mais quente que aquela manhã! 

Quando o cântaro transbordava, desligou a torneira. 

As suas mãos congeladas agarraram o cântaro e com muito esforço, carregou o cântaro, começando outra vez a enorme caminhada até à casa da sua patroa.

Sem querer, o cântaro escorregou-lhe das mãos. Partiu-se no chão em mil pedaços. 

Rapidamente agarrou os cacos e atirou-os para o monte, não fosse aleijar alguém. Aquela distração iria ser recompensada em menos um dia de ordenado e uma sova em casa. Iria haver fome nesse dia.

A água que se entornara no chão, escorria pelo chão, mas grande parte dela já se havia congelado. 

Não valia a pena chorar, então levantou-se do chão e passou a mão no seu avental. 

Tinha uma longa caminhada até casa da patroa.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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