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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

21
Fev18

"O Tempo Não Pára" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Eu sei; Que o tempo não para; O tempo é coisa rara. E a gente só repara; quando ele já passou.

Tocava no velhinho rádio a pilhas da Ti Alice, e os anos que ele já tinha; tinha sido um presente de Natal da Ti Aninhas e do Ti João, ainda se recordava da alegria do Ti Manel, seu marido. Andava sempre com aquela geringonça atrás dele, presa no cinto das calças, lá ia ele para o monte sempre com o ouvido nas boas novas.

Agora era a única companhia da Ti Alice, lá no cantinho da cozinha onde gostava de fazer os seus cozinhados e os seus bordados, não passava um dia sem o ligar para ouvir os “Discos Pedidos”, ouviam-se músicas tão bonitas, faziam-lhe recordar sempre os bons velhos tempos, da sua infância e adolescência. Ouvia cada fado mais lindo… Ainda se lembrava quando a sua falecida mãe cantava os fados da Amália Rodrigues pela casa, era um espanto ouvi-la, cantava tão bem. Na aldeia, toda a gente conhecia muito bem a Maria Queijeira, que vendia queijo do bom porta a porta, diziam que ela para além de vender bom queijo tinha alma de fadista.

Bem, depois dos fados, vinham aquelas músicas, que ela tinha ouvido antes de ontem lá no bailarico da aldeia, que punham toda a gente a dar um belo de um pézinho de dança, às vezes durava até altas horas da madrugada quando já o Sol nascia. Como ela adorava dançar, infelizmente, já não tinha a saúde de outros tempos, de quando era mais nova, e por isso já não podia andar metida nessas andanças e o Ti Manel… Coitado também já estava velhote, cansado e a saúde já era fraca, já não tinha paciência nem disposição para este tipo de coisas. Estava agora a lembrar-se, o que ela dançava com o Carlos, corriam as músicas todas, dançavam o tempo todo e só paravam quando o cansaço os obrigava. Era uma alegria e uma brincadeira pegada. Chegou a namoriscá-lo e tudo, mas ele não tirava os olhos da Mariazinha, hoje uma senhora toda prendada, eram grandes amigas, e por ela se apaixonou, casaram e tiveram dois filhos que já estão arrumados há muitos anos. Vivem e trabalham lá em Lisboa com as crianças, parece que têm dois meninos e uma menina, ouviu dizer à boca cheia pela Ti Joaquina. Do Carlos nunca mais o viu, nem ouviu falar dele, não sabe nada dele, ao que parece ninguém lhe poe a vista em cima há um bom par de dias.

Também gostava muito de ouvir, quando as pessoas ligavam para o senhor da rádio para lhe contar as suas histórias e pedirem aquelas músicas antigas e de outros tempos, às vezes dava umas boas gargalhadas mesmo sozinha, era tão engraçado. Gostava muito do senhor da rádio, o Paulinho como lhe chamava, um dia ainda havia de ligar para lá também, estava a ver se ganhava coragem para se chegar à frente, só para falar com ele, quem sabe, talvez um dia o convidasse para vir comer um patinho assado com eles.

O tempo começava a passar depressa demais para a Ti Alice, a idade já pesava nas rugas profundas que lhe marcavam o rosto, nos braços e nas pernas que há muito que tinham deixado de ser o que eram, nos movimentos lentos e frágeis, no olhar cansado da vida. Uma vida difícil de muito trabalho e pouca saúde, ainda se lembrava de há uns anos sair bem cedo pela fresca e correr o monte todo com as vacas e as ovelhas para as levar a pastar e ainda brincava com o faísca, o velho lavrador da família, ceifava, apanhava o trigo e o centeio e até pegava no tractor e lavrava as terras. Agora já estava um bocado enferrujada dos ossos, já não conseguia dar dois passos sem se cansar, por isso acabava por ficar por casa a tratar das coisas. Só saía na companhia do Ti Manel. Para a Ti Alice, velhice era sinónimo de solidão e pouco viver, principalmente agora que já não tinha a Joaninha e o Henrique com ela, os dois filhos que estavam para a França a trabalhar, só os via de ano a ano, já tinha também dois netinhos pequeninos mas ainda nem os conhecia, estava desejosa de os conhecer.

Ti Alice fica de repente alerta…

– Ainda bem que chegaste homem…
– Então, o que há?
– Escuta! Estás a ouvir?
– Estou a ouvir, estou, mulher!
– Sabes quem é? Conhece-la?
– Mas é… Não pode ser!

Era mesmo a voz da Ti Chica na rádio, toda a aldeia tinha parado para a ouvir, no dia seguinte não se falava de outra coisa.

– Então agora já acreditas!
– Que remédio tenho! E nem te cheguei a contar uma novidade, o Ti João comprou uma maquineta nova.
– Ai, sim?
– Sim, é muito engraçada, tens que ir lá ver. Chama-se, deixa-me cá ver se me lembro… Moblizão.
– Moblizão???
– Sim, é uma caixinha pequenina onde as pessoas falam e podemos vê-las também.
– Nunca vi tal coisa…
– Anda daí que eu mostro-te…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

17
Jan18

"Cabelos Ao Vento" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Sempre gostaste da minha farta cabeleira, desde a adolescência. Eras louco, por ela. Os meus longos cabelos castanhos-claros, quase a passarem o ombro. Dava por mim nas aulas, onde partilhávamos uma das carteiras de frente para o quadro, a fixar o olhar em ti, distraído da matéria, de tudo o que a professora explicava e te rodeava, concentrado a passar os dedos por cada fio do meu cabelo, um dia até chegaste a cheirá-lo, dizias que cheirava ao perfume das rosas.

– Qual é o perfume das rosas? – Perguntei-te eu assim sem mais nem menos só para te desafiar, para te deixar em maus-lençóis, como eu gostava de me meter contigo.

– Não sei! – Respondeste tu muito tímido e envergonhado.

– Então como é que podes dizer que o aroma do meu cabelo é como o perfume das rosas, se não o conheces?

– Tu és a minha rosa e não preciso de conhecer o teu perfume para saber que é o melhor perfume que já existiu. Basta-me senti-lo.

Conseguias sempre deixar-me sem palavras. A professora chamava-te a atenção e tu alteravas a tua postura, mas minutos depois voltavas ao mesmo.

Para ti eu era a rosa de pétalas ao vento, como ficavas maravilhado e satisfeito a ver cada madeixa a esvoaçar no ar, leve e docemente como as asas de um pássaro, gostavas de me ver com a farta cabeleira solta.

O tempo foi passando, fomos crescendo e eu quis desfazer-me da farta cabeleira, estava na altura de mudar, mas tu nunca mais foste o mesmo. Para ti eu tinha deixado de ser quem era, nunca mais me olhaste da mesma forma. Afastamos-nos um do outro, deixamos de nos falar, os nossos caminhos descruzaram-se.

Agora, passados quase 10 anos desde que esta história aconteceu, voltei à farta cabeleira de que tanto gostavas, cansei-me do cabelo curto e sem graça, foi no parque da cidade onde passeava com a minha cara-metade que nos cruzamos. Hoje trazia o cabelo apanhado numa trança, mas apesar de tudo, não deixaste de sentir-lhe o mesmo cheiro de tempos passados. A mesma suavidade, leveza e doçura. Andavas por ali a vaguear sozinho, soube que nunca tinhas encontrado ninguém que preenchesse o vazio que o que sentias por mim tinha deixado. Cumprimentamos-nos, tu tocaste-me e na despedida sussurras-te:

– É bom ter-te de novo aqui!

Beijaste-me.

E desapareceu…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

22
Out17

"Quando o Amor Chegar"

João Jesus e Luís Jesus

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 Olhou de novo para o relógio na parede.

Ainda não tinha chegado! De certeza não ia chegar hoje.

Mais um dia passado e ainda não tinha chegado o que ela tanto queria: o amor.

Levantou-se. Tinha de fazer o jantar. Já era tarde.

Começou a partir uma cebola. Ia fazer o que fazia todos os dias. Arroz de cenoura.

Começou a pensar. 

Já fazia vinte anos que esperava que o amor chegasse a sua casa. Fazia vinte anos que ela esperava sentada num banco à espera de alguém.

Tudo por causa daquela maldita coisa! Tinha vergonha! Vergonha do que os outros fossem pensar dela.

Ela bem sabia que nunca ninguém chegaria ali, pois ela nao conhecia quase ninguém. 

Sabia que se queria algo, tinha de se levantar do banco de madeira e enfrentar os seus medos.

De repente, desligou o gás do fogão. Passou a mão pelas roupas. Olhou para o espelho que tinha na parede.

Saiu de casa e fechou a porta. 

Essa noite, ela iria procurar o amor.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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