Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

28
Mar18

"A Vendedora de Sonhos" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

faca4e863987aff5ba1ed6d4c4652b60.jpg

Todas as noites ela tinha o mesmo sonho: levantava-se – de manhã– bem cedo, colocava a mochila às costas e fazia-se ao caminho até à feira popular. Aproveitava o silêncio das madrugadas para desfrutar dos ruídos silenciosamente desassossegados; enquanto piquenicava a sua fruta preferida. Poucos minutos depois, acabada de chegar à feira, montava a sua banquinha e dizia com regozijo a quem passava que ali não se vendiam bem materiais. Vendiam-se sonhos. As pessoas ficavam a olhar seriamente para ela, não sabendo como compreendê-la e seguiam o seu caminho.

 

Aquela era uma questão que dava que pensar: poder-se-iam vender sonhos? Que tipo de sonhos mais se vendiam?

 

Ali havia de tudo: o sonho de casar e ter filhos, de ser bem-sucedido pessoal e profissionalmente, de ser rico. De ter uma casa nova ou simplesmente de ser feliz. Ela confessava muitas vezes que lhe dava sempre mais prazer “vender”  a simplicidade de um sonho. Há sonhos que não se vendem por valor monetário nenhum, o seu valor é tão incalculável que ela fazia por oferecer esses mesmos sonhos,
para que a vida das pessoas se tornasse melhor.

 

Quase todos os dias, os sonhos disponíveis se esgotavam, fazendo-a acreditar num novo dia e em novos sonhos. Sentia-se realizada quando chegava ao fim do dia vazia de sonhos, significava que tinha feito muitas pessoas felizes.

Mas houve um dia que a marcou. Um dia que ela não consegue esquecer. O dia em que ofereceu o sonho mais especial.  Já só tinha dois sonhos disponíveis, quando se aproximou dela um menino de aspecto humilde e simples, que fazia saltar à vista as suas dificuldades. Deliciava-se com um pequeno chupa de diversas cores. Perguntou-lhe o que estava a vender, ao que ela respondeu que vendia sonhos. O menino ficou intrigado questionando-a de seguida sobre o que eram sonhos. Ela não perdeu tempo a explicar que um sonho é algo que queremos com muita força. O menino ficou pensativo, dizendo tristemente que queria muito uma coisa; mas que não tinha dinheiro para comprá-la. Que era o seu sonho.

 

Ela perguntou-lhe qual era o seu sonho de criança e a resposta não tardou a chegar, como uma seta pronta a acertar em cheio no alvo certo: ter uma mãe. Não soube o que dizer, era mais um daqueles sonhos simples como ela gostava e sabia que tinha que o tornar realidade. Prometeu-lhe que o
iria ajudar.

 

Dali em diante a vendedora de sonhos e o pequeno vendedor de novos sonhos andavam sempre juntos a fazerem as pessoas felizes. Até ao dia em que um casal se dirigiu à banca dos sonhos, procurando um sonho muito específico. Ela perguntou o que procuravam exactamente, caso não tivesse nenhum sonho disponível podia tentar arranjar-se. O casal entreolhou-se e sorriu: “Queremos ser pais”.

 

Foi a primeira vez que a vendedora de sonhos, teve a oportunidade de cruzar dois sonhos de uma vez. O pequeno vendedor de novos sonhos, olhou para ela de lágrima no canto do olho e abraçou-a, agradecendo-lhe por tê-lo ajudado a concretizar o seu sonho.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

01
Fev18

"Temos de Ser o Que nos Apetecer" - Gustavo Santos

João Jesus e Luís Jesus

photoshop-2845779_1920.jpg

Se não mudares, os outros fazem de ti o que querem. 

A velha máxima «Se estás mal, muda-te» faz mesmo todo o sentido. 

Se não nos sentimos bem com determinado relacionamento, se não estamos felizes no nosso trabalho, se não conseguimos encarar certa pessoa ou se, simplesmente, não nos sentimos bem naquele jantar, naquele ginásio ou naquela viagem, só nos resta uma alternativa: mudar. 

Acontece que, e apesar de parecer simples, essa decisão é extremamente delicada. E porquê? Porque uma vez mais colocamos o mundo inteiro à nossa frente. Em vez de nos respeitarmos e levarmos a cabo o nosso desejo de liberdade, saindo de onde estamos para onde queremos estar, não, deixamo-nos ficar mesmo que o amor já não exista, mesmo que o patrão ou os colegas nos tratem mal, mesmo que continuemos a ser julgados ou cobrados pela mãe, pelo pai, pelo tio ou pelo cão e por aí adiante. Não mudamos e o caldo entorna-se. Ou seja, é o pior dos dois mundos. 
Não comemos a sopa, não nos nutrimos, e ainda nos queimamos por andarmos constantemente nas mãos de uns e outros. 

As pessoas relacionam-se mais por medo de se perderem umas às outras ou por necessidade de dominarem alguém do que por se amarem genuinamente, e como a mudança exige sempre uma grande dose de amor-próprio, claro está, é-lhes muito difícil encetarem esse caminho perante tudo e a desfavor de todos. Aceito essa dificuldade, também já passei por esse sentimento inúmeras vezes, mas o que posso garantir é que a grande complicação e aquilo que de mais penoso pode existir na nossa vida é a certeza de que somos manipulados e não conseguirmos deixar de sê-lo, exatamente pelo medo de perder quem nos manipula. 
Estou, naturalmente, a falar de uma profunda ausência de nós em nós mesmos e, por conseguinte, da extrema necessidade de depender de alguém. 

Agora, isto tem de acabar. Esta pouca vergonha tem de ter um fim. 

A mudança é inerente à vida e cada um de nós tem a legitimidade de fazer dela o que bem entender, de mudar tudo o que lhe apetecer e quando lhe der vontade. E quem não aceitar que faça o favor de crescer e quem não perdoar que se vá curar. 

Já chega de viver como ratos de laboratório às voltas numa roda pequena e estreita. Temos de ser homens e mulheres livres. Temos de ser o que nos apetecer. 

Gustavo Santos, in 'Ama-te' 

10
Jan18

"Amor Erótico" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

falar_amor.jpg

Há já alguns dias que tudo se repetia. Todas as noites J. tinha o mesmo sonho, um sonho persistente que o fazia acordar sistematicamente sobressaltado, ofegante e a transpirar. Já não conseguia regressar à cama e voltar a dormir, de boxers e roupão vestido, ia até à cozinha, enchia uma chávena de café bem quente e ficava horas na escuridão da sala, sentado no sofá sobre o vazio da noite. Nunca mais conseguia sossegar, aquele sonho, parecia persegui-lo.

Via e revia tudo tempos a fio. Tudo começava com um cenário todo branco, paredes brancas, sem nada, uma cama ao centro, um nevoeiro esfumado no ar que fazia com que não conseguisse vislumbrar mais pormenores. Do nada aparecia um vulto feminino, belo e esbelto, longos cabelos loiros, sorriso fácil e de lingerie branca. Lentamente ia-se aproximando dele, e num único movimento, puxava-o para si a partir do decote da camisa axadrezada que trazia vestida, para depois o empurrar bruscamente de encontro à cama e assim possuí-lo sofregamente noite dentro. E era assim que tudo começava.

Por entre beijos intensos e carícias, roupa que voava em direcção ao chão, a mão que acariciava cada fio de cabelo dela, que explorava o corpo dela. Os lábios carnudos dela, que lhe humedeciam a pele, as mãos suaves, doces e ternas que percorriam o seu corpo, lhe apertavam a pele e a carne e que o faziam gemer e contorcer-se de prazer, atingindo o clímax, num orgasmo fervilhante. Como adorava as curvas dela, percorrê-las, senti-las, os seios perfeitos, simétricos e quentes que faziam faísca na humidade e frescura dos seus lábios, no suor libertado pelo corpo dela, o ventre duro e macio, desalinhado como as dunas no deserto. A excitação no seu auge. Aquele amor despido, carnal, intenso, vivido no limite, a necessidade e saciedade de um corpo, de contacto físico.

De repente, ela levanta-se, deixando praticamente tudo a meio, ainda havia sensações, cheiros e aromas para explorar e descobrir, nua, sem mais nada que a protegesse, veste a camisa dele. Acena, atira-lhe um beijo e difunde-se na névoa.

J. acorda, e é assim que tudo termina todas as noites, sem mais nenhum detalhe a acrescentar, mas desta vez, tudo foi diferente. Encontra nas costas da cadeira a sua camisa, a camisa do sonho, e de repente sem nada que o fizesse prever… sente o cheiro dela.

Sorri, veste a camisa. E sai…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

08
Jan18

"Fama" - Capítulo XII

João Jesus e Luís Jesus

- Ai! Finalmente em casa. - Suspiro, assim que caio no enorme sofá do meu novo apartamento

Fecho os olhos. Estou tão cansada! 

- Ufa! Nem me posso mexer. - Diz a Dianne, sentando-se perto de mim

Fico quieta durante um grande tempo no sofá. De repente, o meu estômago começa a roncar.

Levanto-me, cheia de preguiça.

- Onde vais? - Pergunta a Dianne, baixinho

- Vou comer alguma coisa. - Digo

Ela olha imediatamente para mim.

- Lembra-te do que a Babuína te disse. - Avisa ela

Sorrio. Babuína foi o nome que demos à senhora que gritou comigo durante um bom tempo sobre os meus hábitos de alimentação.

Abro o frigorífico. Uau! Está cheio de coisas boas. Mas o meu sorriso desvanece-se, pois tudo que existe no frigorífico é light ou muito saudável, tudo dentro da dieta proposta.

Agarro num gelado se menta, claro, light! 

- Parece que hoje já andaram aqui a fazerem tudo para seguir a dieta à risca. - Digo, quando chego perto da Dianne - Só temos comida saudável cá em casa.

A Dianne ri-se.

O gelado até é delicioso, mas falta-lhe aquele sabor a coisa que não faz muito bem para a saúde. Sinto falta disso.

A Dianne coloca um dedo no gelado e come uma grande porção dele.

- Se queres vai buscar. - Brinco

A campainha toca.

- Urgh, quem será agora? - Diz a Dianne revirando os olhos

Levanto-me e abro a porta.

- Oh! Liam! Olá. - Digo sorridente

O Liam entra em casa com o seu enorme sorriso habitual.

- Olá Chelsea. Olá Dianne. - Diz ele 

Fecho a porta.

- Então, gostaram do vosso primeiro dia? - Pergunta ele curioso

A Dianne olha para mim.

- Bem, foi estranho. Também só começamos hoje, amanhã de certeza vai ser melhor. - Minto

Ele senta-se no sofá.

- Ouvi dizer que ouve uns problemas com algumas pessoas na cantina. Essa gente! Arranja logo sarilhos no primeiro dia. 

A Dianne começa-se a rir imeditamente e engasga-se um pouco. 

- Hum, pois. - Digo-lhe, concentrando-me no meu gelado - Uma dessas pessoas..fui...eu.

Ele cala-se e fica a olhar para mim.

- Credo. Estás só no primeiro dia, Chelsea! - Diz ele, espantado - Já sabes que tens de cumprir as regras todas que eles dizem.

- Tu bem sabes que eu sou uma pessoa díficil que detesta seguir regras. - Revelo

- Não faz mal. - Diz ele, colocando a sua mão na minha perna

Uou! Parece que levei um choque elétrico!

- Hum, eu vou à casa de banho... acho eu. - Diz a Dianne, atrapalhada

Ela pisca-me o olho e entra na casa de banho.

- Quando é que a Dianne começa o curso de assistente? - Pergunto, para tentar mudar de assunto

- Acho que começa amanhã. - Diz ele, mas não retira a mão da minha perna

Olho-o nos olhos. Ele sorri levemente. Estou envergonhada.

- Isso é gelado de menta? - Ele agarra na minha colher e tira um grande pedaço de gelado - Adoro.

Ele come a colher de gelado. 

- Acho que o gelado era meu, mas ok. - Digo

Ele ri-se e eu começo a rir-me também.

- Gosto muito de ti, Chelsea. - Diz-me ele

- Eu também gosto muito de ti, Liam.

Ficamos parados a olhar um para outro e de repente, ele beija-me.

É um beijo muito longo. Mas estou a gostar!

- Ai! Ups! Desculpem, acho que ainda não terminei na casa de banho. - Diz a Dianne atrapalhada quando nos vê

Acabamos o beijo e desatamos às gargalhadas.

 

20916630_852581441564418_1179582757_n.png

06
Jan18

"Se For Um Sonho"

João Jesus e Luís Jesus

narrative-794978_1920.jpg

Dei por mim a pensar.

Será que estou a sonhar? E se tudo isto não passar de um grande sonho, com pesadelos dentro? 

Será que a realidade é pior que isto? Será que me atrevo a acordar?

Se tudo isto for um sonho, agradeço à minha linda cabeça pela enorme história que está a criar. Tem os seus pontos altos e também os seus pontos baixos, mas acho que é uma história linda de ser contada.

Não sei porquê, acho que posso mesmo estar a sonhar! Principalmente quando acontece algo demasiado bom, julgo que não pode ser realidade!

Quando presencio momentos maus, oh por favor, não quero mais nada do que acordar na minha cama e dizer a mim próprio que tudo isso era um sonho, um sonho muito mau. Um pesadelo!

Gostava de saber como é a realidade, como é a vida sem estar a sonhar. Será mágica? Será terrível? Será tão má que apenas quero sonhar com algo melhor?

Não sei! Só sei que quero mais disto! Quero sentir-me vivo. Quero sentir mais do mesmo! Quero ter mais surpresas. Quero continuar a viver onde eu amo estar.

Se isto tudo for mais um sonho muito, muito longo, quero apenas continuar a sonhar.

 

20916630_852581441564418_1179582757_n.png

 

Mais sobre nós

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

letrasaventureiras@sapo.pt

Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

letrasaventureiras@sapo.pt

Direitos de Autor

Plágio é CRIME! Não me importo que utilizem os meus textos desde que os identifiquem com o nome pelo qual os escrevo ou o link do blogue. As fotografias que utilizo são retiradas da internet, no entanto, se houver alguma fotografia com direitos de autor: estes não serão esquecidos. Obrigada!

Autora do Banner

DESIGNED BY JOANA ISABEL