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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

25
Abr18

"Amor em 2a Mão" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Estávamos a meio do nosso Interrail, a primeira grande viagem que os meus pais me deixavam fazer sozinha. Estava encantada da vida com ele a meu lado, era a viagem com que sonhava todas as noites de há uns tempos para cá.

Partir assim com ele, sem destino, de mochila às costas; saímos do nosso Alentejo, apanhamos o autocarro até Lisboa e depois seguimos de comboio até Madrid, tínhamos planeado ir visitar algumas capitais da Europa como: Madrid, Paris, Berlim e Munique.
Esses eram os destinos que tínhamos escolhido para fazermos nitidamente uma viagem de sonho, a dois.

Os dias que passamos em Madrid foram mágicos, visitamos tudo, percorremos quase a cidade toda, passeamos, fomos ao Santiago Bernabeu assistir a um jogo do Real Madrid, vibramos com o Cristiano Ronaldo, tiramos fotografias, fomos jantar fora e deliciamo-nos com a Paella e o Flamenco. Foi um dia bastante preenchido, aproveitamos o tempo todo ao máximo, foi mesmo até à última gota, apesar de, os telemóveis não terem parado de tocar, coisa de pais-galinha. Faz parte…

No dia seguinte, fizemos novamente as malas, apanhamos o comboio e… Hasta la vista España; Bonjour Paris. Caía a noite quando a cidade do amor nos deu as boas-vindas, eu estava completamente nas nuvens porque nunca tinha ido a Paris, era a primeira vez que visitava a cidade.
Mas desde a partida para Madrid que algo assombrava os nossos planos, a descoberta que tinha feito de véspera, que não sabia como contar ao Rodrigo.

Na véspera da partida para Madrid, descobri que desde pequenina que tinha um problema congénito de coração que podia ser fatal a qualquer momento. Fiquei em choque e em pânico quando os meus pais me contaram, fiquei sem saber o que fazer e o que dizer, como reagir, como lidar com aquela notícia tão inesperada, tinha sido completamente apanhada de surpresa. Culpei os meus pais por nunca me terem contado nada, por só agora o fazerem. Disseram que era para me protegerem, e a partir desse momento comecei a perceber tudo imediatamente, o porquê de desde muito cedo andarem sempre excessivamente preocupados comigo, o medo e o receio das minhas saídas com as amigas, dos esforços, o facto de terem ficado muito renitentes quando lhes falei daquela viagem.

Chorei, chorei amargamente, isolei-me no meu quarto, não jantei nada, precisava muito de tempo e espaço, de pensar, porque queria muito fazer aquela viagem, era o meu sonho e não ia ser aquela maldita doença no coração que me iria impedir de o concretizar.

Só muito mais tarde voltei a falar com os meus pais, pedi-lhes muito, supliquei e implorei que me deixassem ir, que confiassem em mim, que eu me iria portar bem, que iria ter todos os cuidados e mais alguns. Depois de tantas conversas e de muita insistência, disseram que Sim. Fiquei radiante, mas ainda havia outro problema…

O Rodrigo.

Passei a noite inteira a pensar como havia de lhe contar tudo.

E foi em Paris que tudo aconteceu, à noite, durante o primeiro passeio que demos pela cidade contei-lhe tudo, ao início ficou estático e muito calado a olhar para mim, sem saber o que dizer e o que fazer e sem conseguir acreditar. Expliquei-lhe tudo sem lhe esconder nada, abraçou-me, chorou e disse que jamais me iria deixar, que iria estar sempre ao meu lado a apoiar-me. Fiquei muito mais aliviada e beijei-o apaixonadamente.

Inexplicavelmente, durante a noite, eu comecei a sentir-me mal, com falta de ar, e arritmia cardíaca, o Rodrigo pegou em mim e levou-me logo ao hospital mais próximo, onde fiquei em observação. Quando acordei passadas algumas horas, estava sozinha na enfermaria do hospital, apenas se ouvia o burburinho de enfermeiros e pessoas a entrar e a sair, explicaram-me tudo o que se tinha passado, acalmei-me, olhei para o lado e em cima da mesa-de-cabeceira encontrei um envelope, peguei nele, abri-o e vi logo que era do Rodrigo, a letra dele era inconfundível. Pedia-me desculpa por tudo, por saber que a decisão, muito ponderada e pensada, que tinha tomado, a mais difícil de todas, iria acabar por me magoar.

Dizia-me que ia voltar para Portugal, as lágrimas começaram logo a cair, foi terrível sentir aquela insensibilidade e indiferença para comigo, que o amava tanto, parecia não querer saber de mim, se estava bem ou melhor pelo menos. Dizia que não podíamos continuar juntos, que por muito que gostasse de mim, não queria viver o resto da vida com o medo constante de me perder. Uma grande desculpa. Fiquei triste e desiludida, magoada, o Rodrigo estava a acabar tudo comigo e acabava de me deixar quando eu mais precisava dele ao meu lado e isso jamais lhe iria perdoar.

Dizia que iria gostar sempre de mim e que eu iria ser sempre uma pessoa muito especial para ele, mas dizer-me isso não chegava, não era suficiente, já não me reconfortava, não preenchia o vazio que eu já estava a sentir dentro de mim, a sensação de ausência de uma das pessoas que eu mais gostava e amava, que achava que sentia o mesmo por mim, mas pelos vistos estava redondamente enganada, que era um amigo de verdade, capaz de estar incondicionalmente ao meu lado. Mas não… Na primeira oportunidade, quando viu que as coisas estavam a começar a complicar-se, quando se sentiu sufocado, abandonou-me. É sempre mais fácil fugir dos problemas do que assumi-los, enfrentá-los e ajudar a resolvê-los.

Dizia ainda que esperava que eu melhorasse depressa e que ficasse bem, que conveniente e que irónico, que me tinha visitado, mas que eu estava a dormir. Despedia-se com um até sempre, pedia-me novamente desculpa e que um dia o conseguisse perdoar.

Ali continuei sozinha, a vislumbrar o branco do tecto, com a tinta a descascar, as manchas de humidade; a solidão a ser o meu corpo, a mágoa o meu coração, continuava a ter o rosto coberto de lágrimas. Não queria acreditar que tinha acabado de perder a pessoa que mais amava. Desejei que o meu mundo, parasse para sempre, para mim, que não tivesse aquela maldita doença para poder recuperar o Rodrigo.

Passou um ano, voltei para o Fábio, já tínhamos namorado há uns tempos, um namoro de curta duração, muito precoce, acabamos por nos separar por causa de uma estúpida discussão. Há quase um ano que não o via, mudou de cidade com os pais, já está na faculdade a tirar Medicina. Agora estamos bem, ele está muito diferente, mudou muito, é muito preocupado, atencioso e dedicado. Ama-me acima de tudo e não se importou nada com o meu problema.

É verdade, fiz um transplante de coração, depois de muitos estudos realizados descobriram que era a única solução para eu ter uma vida normal e sossegada. Apesar de todos os riscos inerentes, aceitei, fui à luta e à aventura, correu tudo bem e agora já posso amar de novo. Os meus pais contaram-me que o Fábio esteve sempre lá comigo o tempo todo, no bloco operatório e durante o tempo de recuperação, lembro-me bem de sentir a mão dele, entrelaçada na minha. Ajudou-me em tudo e foi uma enorme fonte de força, determinação, coragem e inspiração, uma pessoa exemplar. E nunca lhe conseguirei agradecer tudo o que ele me deu nos últimos seis meses.

O Rodrigo?

Nem uma visita, nem um telefonema para saber se eu tinha melhorado, talvez a culpa e o peso de consciência o impeçam de me vir ver, talvez a falta de coragem, não o deixe enfrentar-me.

Nunca mais o vi, mas algumas amigas minhas, disseram-me que continua sozinho.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

29
Mar18

"Pedras"

João Jesus e Luís Jesus

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Estavam lá desde sempre. Imortais. Vigilantes.

Não conseguiam falar. Apenas olhavam. Olhavam com os seus olhos fundos e sábios, de quem está na vida há muito, muito tempo. 

Estavam abandonadas. Ninguém lhes dá algum uso. Já viram gente a chegar ao mundo e gente a ir-se embora. Já viram catástrofes, já viram milagres, sempre no mesmo sítio, quietas.

Já provaram sangue das crianças descuidadas que caiam em cima de si. E depois ninguém limpava e ficava lá marcado durante dias, até a água lhes tocar.

Eram pedras. Pedras solitárias.

Nem elas próprias sabiam o que podiam fazer consigo mesmas. Apenas ficavam quietas, pois não conseguiam mexer-se. 

Falavam por pensamento umas com as outras, mas mesmo assim sentiam-se sozinhas.

Só que nesses momentos, todas tinham um truque. Olhavam com os seus olhos de binóculos para dentro das casas das pessoas que viviam perto de si. 

O que viam deixava-as feliz consigo mesmas. Já não se sentiam mais sozinhas, sentiam-se unidas umas com as outras, pois o que viam era gente agarrada a coisas estranhas que davam luzes e piscavam. Estavam sempre calados, sempre a olhar para as maquinetas. Pareciam pedras, mas não como elas.

Sorriam mentalmente umas para as outras e ficavam quietas como sempre. A olhar. Sozinhas mas acompanhadas.

 

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11
Mar18

"Parabéns"

João Jesus e Luís Jesus

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Suspirou novamente.

Podia ser o dia dos seus 20 anos, a idade em que tudo muda, mas sentia-se fraca e triste consigo mesma. 

Abriu o forno e tirou o pequeno queque que tinha feito para si, já que ninguém lhe podia cantar os parabéns, pois era orfã. 

O queque cheirava maravilhosamente bem, mas ela não queria saber. Detesta aniversários! Era o dia em que tudo lhe vinha à cabeça, o dia em que sentia a pior tristeza de todas.

Olhou para o queque. Passaram-lhe imensas imagens pela cabeça. O dia em que ficou orfã, foi a principal. Lembrava-se dos olhos do ladrão que entrou em casa. Lembrava-se de ele os mandar pôr em joelhos. E lembrava-se que no fim, este matou os pais e deixou-a viva para ela sofrer. 

Deu um estalo na cara em si própria. Não queria pensar nisso. O coração parecia que ia arrebentar de mágoas.

Agarrou na vela que comprara de manhã. Espetou-a devagar no bolo e acendeu o isqueiro. Encostou a chama ao pavio da vela e esta acendeu quase de imediato.

Olhou para a pequena chama que dançava na vela. As lágrimas enchiam os olhos dela.

- Parabéns... - Tentou cantar, mas a voz ficava rouca e ia chorar

A sua mãe cantava essa música como ninguém. Tinha uma bela voz.

Levou a mão ao peito. Pensou nos pais, felizes. As lágrimas escorriam pela cara abaixo.

Pensou no que eles poderiam dizer-lhe. Tinha saudades. Tinha saudades da sua família e de estar feliz. 

Abriu os olhos e limpou as lágrimas com a mão. Aproximou-se do queque que ainda brilhava com a luz da vela.

Aproximou-se e soprou, apagando a vela.

- Vou mudar. - Desejou - Por vocês.

Sorriu com tristeza.

 

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02
Mar18

"Ondas de Solidão" - Eça de Queirós

João Jesus e Luís Jesus

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Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão. 


Eça de Queirós, in 'Correspondência' 

02
Jan18

"Ano Novo"

João Jesus e Luís Jesus

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Da janela de sua casa, via o fogo de artíficio com o seu copo de cristal cheio do melhor champanhe.

Gostava de ver o fogo de artíficio desde que era criança. Porém, nestes últimos anos, o fogo parecia sem alegria, parecia sem vida.

Deu um gole no seu champanhe. Depois de a engulir esta queimava-lhe um pouco a garganta. Gostava muito de champanhe.

Viu as pessoas felizes lá fora, abraçadas com as suas roupas de inverno a verem o espetáculo. Estavam felizes, sentiam-se amados.

Saiu de perto da janela. Sabia que se visse mais, provavelmente choraria. As festas faziam esse efeito nela.

As pessoas não gostavam muito dela. Talvez por ser muito rica, as pessoas achavam que ela era convencida e que gostava de esfregar tudo o que tinha na cara dos outros.

Metade disso podia ser verdade. Mas havia uma coisa que ela adoraria esfregar na cara das pessoas, mas não a tinha. Uma família perfeita.

Já a tivera, mas depois daquela zanga nunca mais entrou em contacto com os seus irmãos e os seus pais. 

Mas agora sentia a sua falta. Queria compartilhar alegria com eles. Queria começar um novo ano com a sua família.

Bebeu o resto do champanhe e fez o seu desejo de ano novo. 

Apagou as luzes e saiu de casa, entrando no seu carro.

Tinha de realizar o seu desejo.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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