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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

21
Mar18

"As Palavras Que Nunca Te Direi" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Há palavras que gostava de nunca ter que te dizer. Uma delas é Adeus, um dia acordei e tinha uma mensagem tua no telemóvel, fria, seca e ríspida: Amanhã precisamos de falar!, não dizia mais nada. Já nem mandavas o beijo do costume, estavas diferente e não era preciso dizerem-mo, eu conseguia ver isso em ti, preocupou-me muito, senti o coração em alvoroço e as mãos a tremer.

No dia seguinte, encontramo-nos a caminho do trabalho para o café do costume, entramos, sentamo-nos a um canto recatado numa mesa e disseste-me as palavras que eu jamais queria ouvir: Acabou. Acho que o que temos já não faz muito sentido. Necessito de me afastar para pensar, preciso que me dês um tempo, já não sei muito bem o que sinto por ti. Adeus. Até breve. Segurei-te no braço e pedi-te para ficar.

Afastar. Ausência de ti. Vazio. Mais uma palavra que achava que nunca diríamos um ao outro, que prometi e jurei a pés juntos nunca te dizer e que nunca me passaria sequer pela cabeça. Fiquei em choque, fixa a olhar para ti, sem entender a tua amarga atitude, perguntei-te porquê, não me soubeste responder, remeteste-te ao silêncio e limitaste-te a um simples encolher de ombros. Achei que não era uma resposta definitiva.

Pediste-me desculpa, mais uma palavra que não imaginava virmos a dizer um ao outro, disseste-me que não era tua intenção magoar-me, que continuavas a gostar muito de mim, simplesmente as coisas não estavam a funcionar como tu tinhas previsto.

Magoar. Nunca me tinhas magoado tanto como neste dia, de olhos carregados de lágrimas, e a voz quase a faltar-me, disse-te apenas que não te queria perder. Pedi-te que não me deixasses, que repensasses melhor no assunto, disse-te até que estava disposta a recomeçar tudo de novo contigo. Há coisas para as quais não há recomeços, já não há amor, respondeste-me.

Amor, a palavra que nunca nos faltou e que agora parecia ser a coisa que mais nos faltava. Já não havia nada.

Parto amanhã para o Canadá. Partir. Separação. Tu sabias que eu nunca queria separar-me de ti. Disse-te que ia sentir muito a tua falta, que iria ter muitas saudades tuas. Quem sabe um dia nos voltemos a encontrar…

Calei-me.

Passaram seis meses desde que te foste embora, desde a última vez que te vi e que tive notícias tuas.

O telemóvel toca novamente, vejo uma mensagem tua: Estou em Portugal. Gostava de te ver. J.

Nem tudo terminou.

Afinal de contas houve um reencontro.

E um recomeço.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

08
Nov17

"Destinos (des)Cruzados" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Tinha chegado a hora do adeus, numa manhã chuvosa e fria de Outono. Acordou apressado, o avião partia dali a dez minutos e ele tinha mesmo que se despachar, mas parecia não ter pressa para sair. Naquele dia não havia nada que o fizesse sorrir, que trocasse o silêncio que ele sentia pela alegria dos últimos dias, parecia que ainda sentia o perfume dela em si, nas suas roupas, por toda a casa. Pintado nas paredes, desenhado nos lençóis da cama, em cada divisão. Musicado na sala de jantar onde todas as noites dançavam ao som da mesma música. O sabor dos lábios dela nos seus, naquele último beijo que trocaram. Lembra-se e soletra e sussurra o nome dela… S-O-F-I-A. Que ecoa no ar em cada pedaço de céu.

Recorda, a sua essência, a textura e suavidade da sua pele, o toque, as formas do seu corpo.

Só voltariam a ver-se dali a alguns meses quando o Sol voltasse a brilhar e a Primavera estivesse de regresso, estavam separados pelo imenso Oceano Atlântico, quase em lados opostos do mundo. Nesse curto espaço de tempo, nessa distância sem fim à vista tentariam desenhar a saudade que iriam sentir um do outro. Tudo o resto ficaria bem guardado a sete chaves até voltar a fazer sentido.

As saudades já eram mais do que muitas. Impossíveis de descrever. De viver. Tinham vivido aqueles últimos dias com grande intensidade, o amor que sentiam um pelo outro tinha renascido, tinha reaprendido novamente o verdadeiro sentido do amor.

Desde o Verão que não se viam, que não se tocavam, que não olhavam um para o outro olhos nos olhos. Que o espaço naquela casa não ganhava outra vida, outra cor, que a almofada ao lado da sua, na cama, não era preenchida. A presença de Sofia fazia-lhe falta.
No aeroporto, Sofia já esperava pelo avião na sala de embarque, parecia ansiosa pela chegada de Luís, ainda não tinha parado de o procurar por entre a multidão de pessoas. Mas nada.

Luís, comia a torrada enquanto conduzia a alta velocidade pelas ruas da cidade, tinha cinco minutos para chegar ao aeroporto. Chega finalmente ao aeroporto um minuto depois da hora marcada, o avião acabava de partir levando Sofia para bem longe, Luís olha pela janela para aquele ponto branco no céu. Tinha falhado, nem tinha conseguido despedir-se.

…Muita coisa tinha ficado por dizer.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger "Escreviver"

21
Out17

"A Chegar a Casa"

João Jesus e Luís Jesus

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 O vento batia-lhe na cara com uma força imensa.

Era a segunda vez que andava de mota nesse dia. Agora queria apenas ficar em casa por umas horas!

O capacete estava guardado na mala da mota, debaixo do banco. 

Gostava de sentir o vento na cara, o casaco a voar. 

Agora não ligava a mínima para isso. Queria apenas chegar a casa, ver a sua filha e a sua mulher à espera que chegasse. 

Estava quase a chegar! Estava mesmo quase a chegar.

O semáforo ficou vermelho, então parou. Impaciente, batia com os dedos no guiador da mota. 

O sinal nunca mais mudava. Permanecia vermelho. 

De repente, um clarão de luz apareceu do outro lado da rua. Um clarão enorme.

Era um carro. Parecia descontrolado. 

Ignorou, não deveria chegar perto de si. O sinal continuava vermelho.

De repente, o carro passou por cima dos passeios e chegou perto de si. Viu a pessoa que estava dentro dele, com os olhos arregalados de pavor. Viu o sinal ainda vermelho.

De repente, caiu ao chão com o impacte. Sentiu a testa abrir. Sentiu dor. Sentia um peso por cima.

E o sinal vermelho mudou para verde.

 

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01
Out17

"À Tua Espera"

João Jesus e Luís Jesus

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Jo tinha acabado de pedir um café. 

Sentou-se numa cadeira da esplanada e colocou de novo os óculos de sol na cara. Estava um belo dia em Paris. 

As pessoas passavam com baguetes e com as crianças. Estava mesmo um belo dia.

Jo olhou para o telemóvel. Não tinha recebido nenhuma mensagem. Devia estar a chegar.

- O seu café, minha senhora. - Disse o garçon, num francês muito requintado

- Merci. - Respondeu ela, dando o dinheiro

O garçon aceitou o dinheiro certo e colocou na sua bolsinha. Sorriu e despediu-se.

Jo olhou para o seu relógio de pulso, que lhe fora oferecido. Eram quase sete horas da tarde.

Deu um gole no café escaldante. Ele já devia ter chegado.

Terminou o café e olhou em volta. Será que ele estava a chegar?

- Ainda bem que cheguei! - Disse uma voz, atrás dela

Jo virou-se imediatamente e viu a cara que ela mais amava. 

- Pai! - Levantou-se e abraçou-o

Ele deu uma risada.

- Estava a ver que nunca mais chegava! - Disse ela com um grande sorriso

- Perdi-me nas ruas e tive de pedir ajuda. Mas consegui! - Respondeu ele com um sorriso

Ele sentou-se na cadeira à frente dela e fez sinal ao garçom.

- Isto aqui é mesmo bonito! - Suspirou ele - A mãe ia gostar.

Jo sentiu um pouco de tristeza. A mão tinha partido há cerca de quatro anos. 

- É verdade. - Concordou

O garçom chegou com o café e ele pagou imediatamente, oferecendo gorjeta. O garçom sorriu outra vez e desapareceu.

- Tinha tantas saudades suas. - Suspirou Jo - Mesmo muitas.

- Podias ir sempre visitar-me. Estou sempre de portas abertas. - Respondeu ele

Há muito que o seu pai ansiava para que Jo vivesse com ele.

- Oh pai, você bem sabe que a minha vida está aqui. Não posso ir embora de Paris. - Respondeu ela

- Claro, claro. Eu entendo. - Disse ele, com um pouco de desapontamento - Contudo, estarei sempre à tua espera. 

Ela sorriu e reparou que o café estava a fechar.

- Bem, acho que é hora de irmos para minha casa. - Declarou

Ele levantou-se de imediato.

- Bem, então vamos. Temos umas longas férias pela frente.

Sorridente, ela abraçou o pai mais uma vez e partiram por entre as ruas francesas.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

letrasaventureiras@sapo.pt

Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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