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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

28
Dez17

"Num Pedaço de Cartão"

João Jesus e Luís Jesus

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Começava a chover outra vez. Era a terceira vez naquele dia.

Levantou-se do seu banco de madeira, já um pouco podre e arrumou-o junto das suas coisas.

Bonito! Hoje não tinha angariado nada! Não se via ninguém pelas ruas e quem passou por ele, nem olhava para o pobre senhor. 

Arrumou o chapéu à pressa e começou a montar a sua habitual cama. Nada como uma noite de sono para a chuva passar! 

Colocou o seu pedaço de cartão no chão. Ia ficar todo ensopado, o chão da rua estava cheio de água. 

Pousou-o no chão, rezando para que não tivesse de arranjar outro, pois cada vez mais gente dormia nas ruas e era mais díficil arranjar pedaços de cartão para se deitar. 

Em cima do cartão, pôs um pequeno lençol já velho e deitou-se em cima dele.  

Esticou a mão e agarrou no seu cobertor, o seu bem mais precioso. 

Estava um pouco confortável, embora com a barriga a roncar e sentia a água debaixo do lençol. Ia ter de arranjar um novo pedaço de cartão.

A chuva começou a ser mais forte e a cair em cima dele. Com um suspiro, agarrou no seu plástico e colocou-o por cima dele, enquanto via as gotas de chuva baterem no plástico.

 

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12
Dez17

"Desconhecidos"

João Jesus e Luís Jesus

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Estava sentado no habitual banco da paragem do autocarro.

Tinha fome. Tinha muita fome.

Esperava ali todos os dias para que alguém com bom coração, lhe desse alguma coisa. Esperava ali pela sua família, que lhe prometera que iria voltar para junto dele. Eram mentirosos.

Levantava-se quando a geada o acordava e deitava-se quando acabavam os horários dos autocarros. A paragem era a sua casa.

Por vezes, alguém passava perto dele e olhava-o com pena, mas nunca lhe dava nada. Muitos eram aqueles que se riam dele ou que lhe faziam caretas através do autocarro.

Estava outra vez sentado na paragem, a olhar para as pessoas. Não tinha coragem de pedir nada a ninguém. Limitava-se a olhar, à espera que alguém lhe visse através dos olhos o que ele precisava.

Um homem, com cerca de sete crianças chegou à paragem. 

Deve ser um pai de uma grande família, pensou o homem. Ele também já assim fora.

O homem tinha uma cara enorme de cansado. Tratar de muitas crianças era assim, desgasta-nos mas deixa-nos uma enorme felicidade por dentro.

O homem olhou para ele. A sua cara encheu-se de preocupação.

De repente, ele abriu a sua mochila enorme e tirou um grande embrulho. 

- Tome. - Disse ele para o homem, estendendo-lhe o embrulho

- Não, não. - Recusou o homem, empurrando o embrulho - O senhor vai precisar disso.

Ele sorriu, mas voltou a dar o embrulho ao homem, que desta vez nada disse. 

- E isto pode ajudá-lo.

Colocou-lhe na mão um grande maço de notas. O homem ficou surpreendido e quando se preparava para entregar o dinheiro ao seu dono, chegou o autocarro.

Eles despediram-se dele e acenaram do autocarro. 

O homem sorriu e começou a desembrulhar o embrulho.

 

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26
Out17

"Complicado"

João Jesus e Luís Jesus

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 Puxou a cadeira para trás e sentou-se. 

Espalhou aquilo tudo pela mesa. 

Prendeu o cabelo, aquilo ia levar algum tempo e ia ser devastador! 

Abriu cada carta, uma a uma, passando os olhos em todos os detalhes de cada carta. 

Deixou cair a cabeça na mesa. Estava tudo tão complicado desde que o seu marido morrera. 

Contas enormes que eles não podiam pagar chegaram! A educação dos seus dois filhos ficou cada vez mais cara. Não tinha um cêntimo na carteira.

Cada carta dizia o mesmo, que a luz, a água, o gás iria ser cortado. Que iriam ter de evacuar a sua casa. Tantas contas, tantas complicações.

Limpou a cara com as mãos. Lágrimas rolavam pela sua cara. 

Eram valores absurdos! Não podia pagar nadinha! Nem com empréstimos! Iria demorar séculos para pagar tudo.

O seu estômago roncou pela centésima vez. Não tinha comido nada nesse dia. Deu tudo ao seu filhos, que de dia para dia ficavam cada vez mais magros.

Levantou-se. Agarrou em todas as cartas e atirou-as para a lareira. Queimaram muito depressa.

De repente, a luz apagou-se. 

Caiu ao chão devastada. Tinham acabado de cortar a eletricidade.

 

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15
Out17

"Reflexos"

João Jesus e Luís Jesus

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 Sentou-se na margem do rio.

A geada ainda permanecia sentada em algumas folhas no chão, embora já fossem quase dez horas da manhã.

Devagar, tirou os sapatos velhos e moídos e de seguida, as meias velhas e esburacadas dos pés.

Colocou-as perto de si. Não os queria perder! Era a sua única roupa.

Devagar, colocou os pés na água gelada do inverno. Um arrepio percorreu-lhe a coluna inteira.

Ignorou o frio e tirou o casaco grosso, mas que era demasiado grande e fazia comichão. Colocou-o em cima das meias e dos sapatos.

Muito rapidamente, para se voltar a vestir imediatamente, tirou a camisola de manga curta, já curta para ele. 

Olhou para a água. Já não sentia os pés com aquela água gelada. 

De repente, viu na água a sua cara. 

Estava suja, esta irreconhecível. Tinha vários arranhões e cicatrizes, estava mais magra do que se lembrava e o cabelo era farto. 

Com as mãos em concha, apanhou um pouco de água e molhou a cara. Repetiu isso várias vezes, até sentir a cara limpa.

Voltou a olhar para a água. 

A sua cara já não estava tão suja. Agora em vez das cicatrizes que pareciam enormes, tinha apenas uns riscos castanhos. 

Sorriu levemente. 

De repente, começou a sentir frio.

Então, rapidamente, atirou-se à água, mergulhando fundo e voltando ao cimo, para vestir as suas roupas de novo.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

letrasaventureiras@sapo.pt

Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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