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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

31
Jan18

"O Dia Em Que Partiste" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Faz hoje um ano que partiste. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde tu irias partir, os médicos tinham-me dito. O tempo passou rápido, rápido demais, ainda acho que não tive tempo para aceitar a ideia de ter que viver a partir de agora sem ti para sempre, mas a dor que sinto continua cá, sinto um vazio, o vazio da saudade, da perda, da ausência, da falta que me fazes. Nada passou a ser igual, meu amor.

Faz hoje um ano que os médicos me disseram que ia perder a pessoa com quem convivi desde que existo, a pessoa que mais amei na vida, o meu cúmplice e companheiro, a pessoa que esteve sempre ao meu lado, que me ias deixar, que não havia nada a fazer por ti. Não queria acreditar, não queria aceitar. Não queria continuar a ouvi-los dizer que a partir de agora tudo ia ser só metade.

Faz hoje um ano, que me chamaram àquela sala fria, gelada como a neve, triste e aborrecida do hospital. Ainda era de madrugada quando o telefone tocou, uma forma de acordar de que nunca gostei, do outro lado, uma voz masculina e forte, que me foi logo familiar, ainda me recordo das palavras que me disse, ainda as consigo soletrar: Bom dia, Drª F, lamento acordá-la tão cedo, mas precisamos que venha cá com alguma urgência. Já nem precisava de saber mais nada, percebi logo que tinha a ver contigo, desliguei o telefone, vesti-me quase sem tempo e saí a correr. E tinha mesmo, foi um choque saber que já nada valia a pena. Chorei, chorei, chorei, gritei, supliquei. Mas, infelizmente, já não era possível mudar o final. Iam tirar-te de mim. E assim foi…

Nunca mais me vou esquecer deste dia, amor, no dia em que completávamos uma década juntos, perdi-te para sempre. Roubaram-te de mim. Quem me dera poder voltar atrás no tempo e ter-te de volta, poder apagar esta dor que sinto dentro de mim desde que te foste embora. Continua a magoar-me como se fosse ontem, continua a consumir-me aos bocados, dói tanto inexplicavelmente.

Continuo a deixar estar tudo como está, as tuas coisas tal como as deixaste no dia em que saíste desta casa para nunca mais voltares, ainda não tenho forças suficientes para olhar e mexer nelas, lembram-me demasiado de ti. Por isso evito. Também troquei de carro, ainda não sou capaz de conduzir o teu, era o teu carro, o teu espaço, ainda lá está a tua pasta do trabalho, não a consegui guardar no escritório como seria teu desejo, desculpa, perdoa-me por não cumprir a tua vontade. Queria respeitar os teus espaços, as tuas coisas, a tua memória. Não tem sido nada fácil, meu amor, lidar com a tua eterna ausência, estás em toda a parte da casa, sinto-te aqui todos os dias. Sinto o teu cheiro, o toque da tua pele, a tua presença apenas e só. Desde que… tu sabes o que eu quero dizer que tenho dormido com o teu pijama, talvez assim te consiga sentir mais perto.

Hoje, semanas depois do que aconteceu, cozinhei para primeira vez, mas já não é a mesma coisa, tenho tantas saudades do aroma a panquecas, bacon e ovos que sentia todas as manhãs. Perdi a fome, a vontade de viver, de estar cá. A tua irmã tem sido maravilhosa, tem-me apoiado imenso, é ela que tem tomado conta de mim este tempo todo, para me ajudar a levantar. Dava tudo para que voltasses.

Acabei de me sentar no nosso sofá, junto à janela da sala grande, onde passávamos horas abraçados, vou pegar num livro teu, talvez assim sinta o teu abraço…

A vida é um sopro dizia o pedaço de papel que encontrei no interior do teu livro.

Como me arrepiei… Afinal sempre existes.

Não partiste!

Senti-te aqui!

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

10
Dez17

"Perdido"

João Jesus e Luís Jesus

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Finalmente estava lá em cima!
Subiu para a pedra mais alta e olhou. Lá embaixo via as casinhas todas, as luzes ligadas e algumas crianças a brincar na rua.

Já há muito tempo que tentava subir aquela enorme montanha, para ver melhor o mundo.

Queria ver as casas todas, queria ver algo familiar. Não sabia onde estava. Estava perdido.

Estava perdido pois um homem estranho, de barba enorme e dentes podres o tinha levado para um sítio suspeito e ele conseguiu fugir.

Olhou atentamente para todo o lado. Não via nada familiar. Não via a sua casa. Não via o seu carro. Não via os seus pais à procura dele.

Sentou-se na pedra e chorou. Tinha sido em vão! Estava perdido eternamente. Nunca iria encontrar a sua casa. Ia viver na floresta para a vida toda.

De repente, levantou-se outra vez e olhou para o horizonte. Via o sol a tentar esconder-se para dar lugar à noite. 

Então decidiu perseguir o sol até encontrar a sua casa. Talvez o sol fosse seu amigo e lhe desse luz para encontrar a sua casa de novo.

Desceu da pedra, com um leve sorriso na cara e começou a correr. 

Iria encontrar a sua casa.

 

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12
Out17

"Caída no Chão"

João Jesus e Luís Jesus

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 O telefone partiu-se no chão.

Ficou petrificada. O coração congelou. 

Caiu ao chão, mas não se quis levantar. Ficou ali, parada. 

Então, de repente, as lágrimas começaram a jorrar-lhe dos olhos. Um buraco abriu-se-lhe no peito. Sentia uma dor terrível, como nunca sentira antes.

Nunca mais o iria ver! Nunca mais! 

Agarrou-se ao peito. Queria cobrir o buraco, para que este parasse de doer tanto. Mas não conseguia.

Gritava. Gritava bem alto para que pudesse acordar, para que lhe dissessem que era um sonho.

Mas não era. Era bem real.

Estava morto. O seu filho, o seu único filho, fora morto. Nunca mais o iria ver. 

Lembrou-se do seu marido. Será que ele já sabia? Devia estar a chegar do trabalho.

Gritou outra vez.

Ela bem o tinha avisado para não ir para longe de casa, para longe deles. Mas ele apenas queria estudar! 

Agora, jazia na estrada negra, no meio dos gritos das pessoas aterrorizadas pela explosão. 

Gritou outra vez. Tentou controlar a dor, mas esta não deixava ser controlada. Queria libertar-se.

Viu os pedaços do telemóvel partidos no chão da cozinha. Não queria saber.

A passos rápidos, chegou ao quarto onde dormira o seu filho, ainda há uns meses atrás.

Os gritos pararam. A dor pareceu atenuar. Sentia o seu cheiro.

De repente, deixou-se cair na cama dele e a dor voltou. Voltou ainda maior porque se lembrou dele.

Então, continuou a gritar por entre as suas lágrimas de mãe. 

Nunca mais iria ver o seu filho.

 

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06
Out17

"No Banco da Frente"

João Jesus e Luís Jesus

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 Carregou no travão rapidamente.

Mais um pouco e o carro da frente ia ficar com um amasso. Não o tinha visto! 

Parou o carro, pois estava uma grande fila deles à frente. Olhou para trás.

- O que aconteceu, mamã? - Perguntou a filha que ia no banco de trás

- Nada! Volta a dormir, meu amor. - Confortou-a

A menina piscou os olhos e voltou a deitar-se no banco.

Ela abriu o vidro, mas fechou-o imediatamente. Ainda cheirava muito a fumo!

Foram obrigadas a evacuar, pois o vizinho incendiou a casa, provocando um grande incêndio, que rapidamente se propagou pela vila inteira.

As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, silenciosas. A sua casa, a sua vida, todas as suas coisas, ficaram para trás. 

Não conseguia descrever a dor que sentia. Era enorme, tão dolorosa! Tinha de recomeçar a sua vida do zero, agora. 

Onde é que ia dormir à noite? Onde é que se iria abrigar nos dias de chuva e frio? Onde é que iria ouvir as vizinhas tagarelar sobre o marido da senhora Cristiana? E pior, onde é que ia viver com a filha, o seu único bem?

Os olhos encheram-se de lágrimas. Apertou com força o volante. Estava enervada!

O carro da frente começou a andar e então, ela não pode fazer mais nada do que o seguir.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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