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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

04
Mar18

"Seco"

João Jesus e Luís Jesus

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Era a quarta vez da semana que ele ia aquele sítio.

Com a sachola nas costas, cambaleava até ao poço que abastecia a sua pequena e humilde casa. 

Já era velho, mas a força não lhe faltava. Cerrou os dentes e puxou a tampa do poço de imediato. Com receio, olhou para dentro do poço.

O coração caiu. Já não tinha nada. O poço tinha finalmente secado. Nem uma gota sobrava no fundo do poço.

Ajoelhou-se, derrotado. Sabia que ia acontecer, mas não estava preparado. Ia morrer à sede, juntamente com a sua mulher e filhos.

Fechou a tampa do poço. Atirou a sachola para algum sítio qualquer. Já não queria fazer mais nada.

Entrou em casa e atirou-se para a sua cama já velha e muito usada.

- O que se passa? - Perguntou a mulher vinda da cozinha

Não lhe respondeu. Não queria dizer que iam morrer.

- O que se passa?

Olhou para ela e ela descobriu tudo através dos olhos do marido. Fugiu para a cozinha com os olhos cheios de lágrimas.

Não conseguia dormir. Ficou apenas parado na cama, enquanto ouvia os sons dos pássaros lá fora. A mulher não fez mais nada. Não tinha água para cozinhar, não tinha mais nada. Ficou apenas a olhar para o mundo fora de casa.

Ouviu os filhos a chegar e a irem ter com os pais. Mas eles nada lhe diziam. Não tardou muito até estes perceberem.

Chegou a noite. Ainda continuava igual. Sentia-se desiludido. Sentia que podia ter feito alguma coisa, mas não fez. 

Fechou os olhos e apenas rezou. Rezou para que Deus não os deixasse morrer assim. Rezou para que tivessem água em abundância para poderem sobreviver. 

A mulher deitou-se na cama sem dizer uma palavra. Os dois adormeceram após algum tempo.

A meio da noite, acordaram. Sentiam algo estranho. Algo estava por vir.

De repente, um som de um trovão ecoou no ar. Levantou-se de imediato e saiu a rua, com a mulher atrás.

Uma chuva miudinha começava a cair. O coração encheu-se de alegria e abriu os braços debaixo da chuva, que agora era mais forte. 

Estava a chover. Não iam morrer.

E todos dançavam debaixo da chuva.

 

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17
Fev18

"Despedida"

João Jesus e Luís Jesus

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Olhou para o relógio uma última vez e reparou que era quase meia-noite. 

Corria pela rua apinhada de gente em Nova York. Tinha de chegar a casa. Queria estar alguns momentos com o seu filho antes de partir no dia seguinte para uma missão em África.

Cada vez mais gente se juntava nas ruas. Mal conseguia passar. Mas nesta noite, ele faria o impossível. Queria ver o seu filho uma última vez antes de partir.

De repente, bateu contra alguém e caiu no chão.

- Desculpe! - Disse o senhor

- Não faz mal. - Disse, levantando-se imediatamente e recomeçando a corrida

Sentia o peito a arder, as pernas a ceder... Sentia que podia morrer a qualquer momento. Mas hoje, até tentaria matar a Morte, só para ver a cabeça do seu filho uma última vez.

Chegou à porta do prédio e à pressa tirou as chaves do bolso e abriu a porta muito rapidamente. Carregou no botão do elevador, mas não queria esperar e desatou a correr pelas escadas acima. 

Abriu a porta de casa e atirou as chaves para o chaveiro.

- Fred? - Disse

Não ouviu resposta, mas começou a ouvir passos vindos da cozinha.

- Fala baixo, ele está a dormir. - Disse a sua mulher

Suspirou. 

- Prometeste que chegavas mais cedo hoje. Ele esperou por ti, mas acabou por adormecer. - Revelou ela - Não lhe podes prometer algo e nunca cumprir.

- Eu sei. - Abraçou-a - Mas não consegui sair mais cedo. E tenho de me despedir dele.

Ela olhou para ele seriamente e notou que os seus olhos se enchiam de água.

- Parece que o dia chegou. - Disse, beijando-o - Vai lá despedir-te dele. 

Abraçou-a novamente e entrou no quarto do filho.

Ele ressonava baixinho na sua cama. Resolveu não o acordar.

Sentou-se na borda da cama e olhou para o filho. Ele respirava devagarinho. 

As lágrimas começaram a sair dos seus olhos. Colocou a mão no cabelo do filho, sentindo-o uma última vez. Adorava mexer-lhe no cabelo. Acalmava-o.

Beijou-lhe a testa e acariciou-lhe a cara. Devagarinho, já muito emocionado, levantou-se e saiu do quarto, olhando uma última vez para o filho, que dormia.

 

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14
Fev18

"Laços De Sangue" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Eu sabia que existias…

Tinham-me me dito que sim, ouvia falar de ti, tinham-me contado muitas histórias sobre ti quando era pequena, de como éramos cúmplices e inseparáveis, das brincadeiras que fazíamos, a ligação forte e especial que tínhamos, tenho pena de não me recordar de ti e desses tempos felizes contigo. Mas á parte disso sentia-o e pressinta-o e tinha que te procurar, que te encontrar, que te ver, que te tocar, que te sentir, foi com essa premissa que cresci e amadureci. Contra a vontade de meio mundo que insistia que eu esquecesse esse assunto e me diziam que tu tinhas ido para muito longe e que não querias saber de mim.

Acabei de me sentar na sala, com um álbum de fotografias no colo, como éramos felizes… Cada vez que me recordo daquele fatídico dia apetece-me fugir daqui para onde tu estás e nunca mais voltar. O nosso pai, a sair do quarto de malas prontas, pegar em ti ao colo e sair porta fora para nunca mais voltar, não disse nada, não se despediu, nada. Nem um simples adeus, um abraço, um beijo. Naquela altura, olha vai fazer amanhã precisamente quinze anos que te vi pela última vez, deves estar um homem feito. Naquela altura, não percebia porque é que o pai tinha que ir embora sem se quer se despedir de mim ou da mãe e levar-te com ele, porque é que não podias ficar comigo e com a mãe, foram dias e dias de tristeza, dor, sofrimento e angústia. A mãe, não parava de chorar, deixou de comer e entrou em depressão, morria de saudades tuas e dizia que tinha o coração desfeito. E eu passei dias e dias a fio a chamar por ti, a perguntar por ti e porque é que te tinhas ido embora, fazias-me falta, gostava de brincar contigo, as brincadeiras sem ti já não eram as mesmas nem tinham a mesma graça, com o tempo aprendi a brincar sozinha, a ser sozinha, fui-te quase esquecendo até me habituar a não estares presente.

Numas férias de Verão, assim sem mais nem menos lembrei-me de ti, e algo mudou, pensei muito e estava determinada a saber de ti e a ir atrás de ti. Abdiquei de ir para a praia com os meus amigos, para te tentar encontrar, não me interessava se vivias longe ou perto de nós, eu tinha que te procurar e dava a volta ao mundo se fosse preciso. E num final de tarde conversei com a mãe, perguntei-lhe tudo o que há anos queria perguntar e saber, disse-me que o pai tinha emigrado e que provavelmente tu terias ido com ele. Não foi por isso que desisti, havia de chegar a ti. Falei com a avó São, sempre tive uma relação especial com ela apesar de já não nos vermos há anos, no início mostrou-se muito renitente em falar de ti e em dizer-me onde estavas, mas depois lá cedeu. Deu-me o teu número de telemóvel.

Que nervos e que ansiedade, andei 3 dias sem saber o que fazer, mal dormia, não conseguia sossegar, numa manhã de Domingo, ganhei coragem, peguei no pedaço de papel com o teu número e liguei, do outro lado uma voz doce, suave e meiga. Ao princípio mantive-me em silêncio, emocionada, não sabia o que dizer, como reagir, mas depois a emoção falou por si e estivemos quase duas horas ao telefone. Foi tão bom.

Uma semana depois, estava a embarcar no avião para ir ter contigo à Alemanha, não continha os nervos, passadas as duas horas de voo, entrei no aeroporto e mal te vi corri logo desenfreadamente para ti como uma criança a quem acabam de oferecer o brinquedo preferido. Abraçamos-nos e choramos durante longos minutos, tínhamos a palavra saudade escrita no olhar, a ausência desenhada na pele.

– A partir de hoje nunca mais nos vamos largar. – Disseste-me.

– Nem duvides!

Foram os três dias mais inesquecíveis da minha vida, andamos sempre juntos. Mostraste-me como era a tua vida, o que fazias, onde estudavas, conheci os teus amigos e toda a cidade. Revi o pai, a quem desculpei de certa forma o facto de nos ter separado, mas a quem nunca irei perdoar o que fez, os avós e todos os outros, mas eras tu a peça mais importante. E foram nestes anos todos os dias mais felizes.

Falaste com a mãe, que não conteve a emoção, arrepiava-me só de ouvir a sua voz trémula e o choro quase compulsivo de quem viveu todo este tempo sem um filho.

E agora acabo de receber notícias tuas:

Vou voltar.
As malas estão feitas.
Apanho amanhã o primeiro voo da manhã.
E desta vez é para sempre.

Há encontros e desencontros que jamais se esquecem.

E foi…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

03
Fev18

"Fuligem"

João Jesus e Luís Jesus

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A sua lanterna iluminava mal o caminho à sua frente.

Cheirava a carvão e o ar era pesado. Detestava estar ali, mas tinha de ser!

Empurrou o carro mais para a frente. Nem sabia o porque de ainda trabalhar ali, não se via nenhum pedaço de nada em lado nenhum há muito tempo.

- Não há nada aqui e nem temos salários de jeito. Juro que qualquer dia saio daqui. - Disse o seu colega

Era já de noite, mas debaixo de terra era um calor enorme, como o dia mais quente de verão.

- Então? Não estás farto de estar aqui? - Perguntou o colega

Olhou para ele.

- Família. Somos muitos, precisamos de sustento. Nestes momentos vale tudo. - Revelou

O homem fez um expressão de pena. 

- E o que te aconteceu para vires parar aqui? Não tens jeito de ser mineiro. 

Sorriu. Tinha acertado em cheio.

- Empresário. Enganaram-me e perdi tudo. É o risco dos negócios. - Disse, olhando em frente

- Isso é que é pior. - Disse o homem

O colega parou o carro dele e aproximou-se dele, colocando-lhe a mão no ombro.

- Já passaram aqui muitos homens, alguns quase iguais a ti, mas nenhum conseguiu nada, desistiam de trabalhar aqui e passavam-se a andar. Eu aposto em ti, tu vais conseguir. Sinto isso. - Revelou o homem

Sorriu para o homem e deu-lhe uma palmada nas costas.

- Obrigado, a sério.

Sorriram e continuaram a andar com o carro de carvão.

De repente, suspirou.

- Olha! - Apontou para a frente

- Onde?

Continuou a apontar em frente e aproximou-se com o colega.

- Não acredito.

Ficou perplexo com o que estava na sua frente.

- Tanto carvão!

Na sua frente, erguia-se uma enorme parede de carvão.

 

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23
Jan18

"O Primeiro Dente"

João Jesus e Luís Jesus

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Acordou com um grito imenso.

- Mãe, mãe! - Gritava o menino perto de si

Assustada, colocou a sua mão em cima da cabeça dele.

- O que se passa? - Perguntou-lhe

- Olha! Ele vem aí! - Disse entusiasmado

A mãe ergueu o sobrolho. Do que é que o filho falava?

O filho sorriu e abriu a boca, apontando para o sítio onde há uma semana atrás saiu o seu primeiro dente. 

E lá estava! A espreitar, estava um dente pequenino muito reluzente e branco. A mãe sorriu.

- É uma coisa normal, podias dizer-me mais tarde. - Riu-se a mãe

- Mas eu queria que soubesses logo que ele vem aí! É o meu primeiro dente. 

A mãe passou-lhe a mão na cabeça e despenteou-lhe o cabelo. Às vezes o seu filho tinha umas ideias disparatadas.

- Agora tens de o receber bem e prometer-lhe que o vais lavar sempre que comeres, ok? - Perguntou-lhe

- Prometo.

A mãe sorriu e o filho saltou para os seus braços.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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