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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

20
Jan18

"Ser Poeta" - Florbela Espanca

João Jesus e Luís Jesus

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Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior 

Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 

É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 

É ter fome, é ter sede de Infinito! 
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... 
É condensar o mundo num só grito! 

E é amar-te, assim, perdidamente... 
É seres alma e sangue e vida em mim 
E dizê-lo cantando a toda gente! 

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" 

17
Jan18

"Cabelos Ao Vento" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Sempre gostaste da minha farta cabeleira, desde a adolescência. Eras louco, por ela. Os meus longos cabelos castanhos-claros, quase a passarem o ombro. Dava por mim nas aulas, onde partilhávamos uma das carteiras de frente para o quadro, a fixar o olhar em ti, distraído da matéria, de tudo o que a professora explicava e te rodeava, concentrado a passar os dedos por cada fio do meu cabelo, um dia até chegaste a cheirá-lo, dizias que cheirava ao perfume das rosas.

– Qual é o perfume das rosas? – Perguntei-te eu assim sem mais nem menos só para te desafiar, para te deixar em maus-lençóis, como eu gostava de me meter contigo.

– Não sei! – Respondeste tu muito tímido e envergonhado.

– Então como é que podes dizer que o aroma do meu cabelo é como o perfume das rosas, se não o conheces?

– Tu és a minha rosa e não preciso de conhecer o teu perfume para saber que é o melhor perfume que já existiu. Basta-me senti-lo.

Conseguias sempre deixar-me sem palavras. A professora chamava-te a atenção e tu alteravas a tua postura, mas minutos depois voltavas ao mesmo.

Para ti eu era a rosa de pétalas ao vento, como ficavas maravilhado e satisfeito a ver cada madeixa a esvoaçar no ar, leve e docemente como as asas de um pássaro, gostavas de me ver com a farta cabeleira solta.

O tempo foi passando, fomos crescendo e eu quis desfazer-me da farta cabeleira, estava na altura de mudar, mas tu nunca mais foste o mesmo. Para ti eu tinha deixado de ser quem era, nunca mais me olhaste da mesma forma. Afastamos-nos um do outro, deixamos de nos falar, os nossos caminhos descruzaram-se.

Agora, passados quase 10 anos desde que esta história aconteceu, voltei à farta cabeleira de que tanto gostavas, cansei-me do cabelo curto e sem graça, foi no parque da cidade onde passeava com a minha cara-metade que nos cruzamos. Hoje trazia o cabelo apanhado numa trança, mas apesar de tudo, não deixaste de sentir-lhe o mesmo cheiro de tempos passados. A mesma suavidade, leveza e doçura. Andavas por ali a vaguear sozinho, soube que nunca tinhas encontrado ninguém que preenchesse o vazio que o que sentias por mim tinha deixado. Cumprimentamos-nos, tu tocaste-me e na despedida sussurras-te:

– É bom ter-te de novo aqui!

Beijaste-me.

E desapareceu…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

13
Jan18

"Mãe" - Miguel Torga

João Jesus e Luís Jesus

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Mãe: 

Que desgraça na vida aconteceu, 
Que ficaste insensível e gelada? 
Que todo o teu perfil se endureceu 
Numa linha severa e desenhada? 

Como as estátuas, que são gente nossa 
Cansada de palavras e ternura, 
Assim tu me pareces no teu leito. 
Presença cinzelada em pedra dura, 
Que não tem coração dentro do peito. 

Chamo aos gritos por ti — não me respondes. 
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio. 
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes 
Por detrás do terror deste vazio. 

Mãe: 
Abre os olhos ao menos, diz que sim! 
Diz que me vês ainda, que me queres. 
Que és a eterna mulher entre as mulheres. 
Que nem a morte te afastou de mim! 

Miguel Torga, in 'Diário IV' 

10
Jan18

"Amor Erótico" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Há já alguns dias que tudo se repetia. Todas as noites J. tinha o mesmo sonho, um sonho persistente que o fazia acordar sistematicamente sobressaltado, ofegante e a transpirar. Já não conseguia regressar à cama e voltar a dormir, de boxers e roupão vestido, ia até à cozinha, enchia uma chávena de café bem quente e ficava horas na escuridão da sala, sentado no sofá sobre o vazio da noite. Nunca mais conseguia sossegar, aquele sonho, parecia persegui-lo.

Via e revia tudo tempos a fio. Tudo começava com um cenário todo branco, paredes brancas, sem nada, uma cama ao centro, um nevoeiro esfumado no ar que fazia com que não conseguisse vislumbrar mais pormenores. Do nada aparecia um vulto feminino, belo e esbelto, longos cabelos loiros, sorriso fácil e de lingerie branca. Lentamente ia-se aproximando dele, e num único movimento, puxava-o para si a partir do decote da camisa axadrezada que trazia vestida, para depois o empurrar bruscamente de encontro à cama e assim possuí-lo sofregamente noite dentro. E era assim que tudo começava.

Por entre beijos intensos e carícias, roupa que voava em direcção ao chão, a mão que acariciava cada fio de cabelo dela, que explorava o corpo dela. Os lábios carnudos dela, que lhe humedeciam a pele, as mãos suaves, doces e ternas que percorriam o seu corpo, lhe apertavam a pele e a carne e que o faziam gemer e contorcer-se de prazer, atingindo o clímax, num orgasmo fervilhante. Como adorava as curvas dela, percorrê-las, senti-las, os seios perfeitos, simétricos e quentes que faziam faísca na humidade e frescura dos seus lábios, no suor libertado pelo corpo dela, o ventre duro e macio, desalinhado como as dunas no deserto. A excitação no seu auge. Aquele amor despido, carnal, intenso, vivido no limite, a necessidade e saciedade de um corpo, de contacto físico.

De repente, ela levanta-se, deixando praticamente tudo a meio, ainda havia sensações, cheiros e aromas para explorar e descobrir, nua, sem mais nada que a protegesse, veste a camisa dele. Acena, atira-lhe um beijo e difunde-se na névoa.

J. acorda, e é assim que tudo termina todas as noites, sem mais nenhum detalhe a acrescentar, mas desta vez, tudo foi diferente. Encontra nas costas da cadeira a sua camisa, a camisa do sonho, e de repente sem nada que o fizesse prever… sente o cheiro dela.

Sorri, veste a camisa. E sai…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

05
Jan18

"Viver é Não Saber Que Se Vive" - Florbela Espanca

João Jesus e Luís Jesus

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Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face... E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver... para viver? 


Florbela Espanca, in "Diário do Último Ano" 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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