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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

15
Nov17

"Second Chance" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Eramos os melhores amigos. Quase unha com carne. Não nos separávamos para nada, parecia que havia qualquer coisa entre nós, que ainda hoje não sei explicar muito bem o que era, que fazia com que tivéssemos que estar todos os dias em contacto. E quando não podíamos estar, trocávamos milhares de mensagens escritas. De certa maneira ele era o meu pequeno vício. Partilhávamos um com o outro um pouco de tudo, nada ficava por dizer, por contar, por partilhar, entre nós jamais havia segredos. Confiávamos plenamente um no outro. Ele era o meu porto seguro, o meu escudo e algumas vezes o meu pequeno muro das lamentações. Compreendíamo-nos muito bem, bastava um olhar, um sorriso, um toque, e tínhamos uma boa dose de paciência um com o outro.

Chegamos a partilhar as casas um do outro, a jantar à mesma mesa, os meus pais gostavam muito dele. Todas as noites tínhamos o ritual de fazer uma chamada um para o outro antes de irmos dormir, por nenhuma razão em especial até porque passávamos os dias inteiros juntos, apenas para uma troca saudável de algumas boas gargalhadas e para desejarmos “Boa noite”.
Havia quem dissesse que, nós eramos únicos, porque nós fazíamos coisas que mais ninguém tinha coragem de fazer. Dávamos valor aos pequenos gestos… como este.
Comecei a gostar dele, um gostar diferente do gostar de amigo do peito. Um gostar do fundo do coração. Porque a amizade também é amor. As coisas entre nós mudaram, e mudaram muito, estávamos apaixonados, e transformamo-nos em amigos coloridos. Um dia M. revelou um pedaço de si que eu não conhecia e que não esperava, disse-me que não podíamos continuar a ser amigos porque eramos de mundos completamente diferentes. Fiquei sem perceber a razão daquela mudança, passei dias a pensar sem chegar a uma conclusão, até ao dia em que ele acabou tudo com uma simples mensagem. Ao que parecia, tinha namorada e não queria perdê-la por minha causa, então era melhor pôr um ponto final em tudo o que tínhamos. Fiquei arrasada, jurei jamais o perdoar, senti-me enganada, usada e magoada, tinha confiado numa pessoa que não era mais do que uma mentira. Perdemos o contacto. Nunca mais falamos. Parece que é feliz ao lado da P.

No entanto, um dia mais tarde perdoei-o em prol dos bons velhos tempos. Tinha saudades dele. Ganhei coragem e marcamos um café.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

08
Nov17

"Destinos (des)Cruzados" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Tinha chegado a hora do adeus, numa manhã chuvosa e fria de Outono. Acordou apressado, o avião partia dali a dez minutos e ele tinha mesmo que se despachar, mas parecia não ter pressa para sair. Naquele dia não havia nada que o fizesse sorrir, que trocasse o silêncio que ele sentia pela alegria dos últimos dias, parecia que ainda sentia o perfume dela em si, nas suas roupas, por toda a casa. Pintado nas paredes, desenhado nos lençóis da cama, em cada divisão. Musicado na sala de jantar onde todas as noites dançavam ao som da mesma música. O sabor dos lábios dela nos seus, naquele último beijo que trocaram. Lembra-se e soletra e sussurra o nome dela… S-O-F-I-A. Que ecoa no ar em cada pedaço de céu.

Recorda, a sua essência, a textura e suavidade da sua pele, o toque, as formas do seu corpo.

Só voltariam a ver-se dali a alguns meses quando o Sol voltasse a brilhar e a Primavera estivesse de regresso, estavam separados pelo imenso Oceano Atlântico, quase em lados opostos do mundo. Nesse curto espaço de tempo, nessa distância sem fim à vista tentariam desenhar a saudade que iriam sentir um do outro. Tudo o resto ficaria bem guardado a sete chaves até voltar a fazer sentido.

As saudades já eram mais do que muitas. Impossíveis de descrever. De viver. Tinham vivido aqueles últimos dias com grande intensidade, o amor que sentiam um pelo outro tinha renascido, tinha reaprendido novamente o verdadeiro sentido do amor.

Desde o Verão que não se viam, que não se tocavam, que não olhavam um para o outro olhos nos olhos. Que o espaço naquela casa não ganhava outra vida, outra cor, que a almofada ao lado da sua, na cama, não era preenchida. A presença de Sofia fazia-lhe falta.
No aeroporto, Sofia já esperava pelo avião na sala de embarque, parecia ansiosa pela chegada de Luís, ainda não tinha parado de o procurar por entre a multidão de pessoas. Mas nada.

Luís, comia a torrada enquanto conduzia a alta velocidade pelas ruas da cidade, tinha cinco minutos para chegar ao aeroporto. Chega finalmente ao aeroporto um minuto depois da hora marcada, o avião acabava de partir levando Sofia para bem longe, Luís olha pela janela para aquele ponto branco no céu. Tinha falhado, nem tinha conseguido despedir-se.

…Muita coisa tinha ficado por dizer.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger "Escreviver"

01
Nov17

"Estranha Forma de Vida" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Hoje foi dia de mais um dos nossos encontros. Desde a adolescência que todas as semanas, eu, a Babi, a Sílvia, e a Nonô, às Quartas-feiras à noite, fazemos a nossa noite de mulheres. Nestas nossas noites, não é permitida a entrada a namorados ou maridos, deixamo-los em casa sozinhos a suspirar noite dentro pela nossa chegada e a imaginarem como são estas nossas noites exclusivamente femininas. Nunca lhes revelamos nada, fica tudo no segredo dos Deuses, só nós é que sabemos todos os detalhes. E vamo-nos divertir… Sozinhas.

O trabalho é outra daquelas coisas que não é convidada para a festa, nestas nossas noites, reunimo-nos e falamos de todos os assuntos de mulheres possíveis e imaginários excepto de coisas de trabalho. É mesmo expressamente proibido, mas nem sempre é fácil evitar, muitas vezes caímos no erro de falar de coisas relacionadas com o nosso trabalho. Sabem como é, faz parte do dia estarmos constantemente a falar de trabalho, é daquelas coisas que se entranha facilmente na pele. E depois não conseguimos desligar, e os assuntos acabam a fugir sempre para o mesmo.
Precisamente por causa do trabalho, a nossa noite feminina de hoje esteve mesmo para não se realizar, algo que nunca tinha acontecido até hoje. Mas entretanto a Babi ligou-nos e disse que precisava muito que nos encontrássemos hoje, que tinha uma coisa muito importante para nos contar. 
Tentamos reorganizar-nos e lá fomos, até ao bar do costume…

– Então o que é se passa?!
– Lembram-se das minhas férias em Ibiza?! Eu traí o Filipe com o Personal Trainer do ginásio do hotel.
Caiu como uma bomba.
– Tu o quê?! Enlouqueceste?!
– Talvez… Acho que não fui capaz de resistir. E por isso é que acabei tudo com o Filipe, antes fugir do que remediar.
– Tu acabaste tudo com ele para não teres que lhe contar a verdade?!
– Sim. É melhor assim. Para além disso o mal já está feito e não há volta a dar. Mais vale ele nem se quer vir a saber.
– Tu é que sabes, mas acho que fazes mal. Virares as costas aos problemas nunca foi uma boa solução. Há que encarar a vida de pé e de frente.

E dois dias depois… O Filipe acabaria por descobrir tudo.

 

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

28
Out17

"São as Pessoas Como Tu" - Joaquim Pessoa

João Jesus e Luís Jesus

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 São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras. 

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo. Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha. São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita. São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor. São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo. 

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum' 

25
Out17

"Um Homem Chega a Casa e..." - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Um Homem chega a casa e… Encontra o silêncio, companheiro de todas as horas, madrugador nato. Sombra de momentos felizes, calmos e sossegados e de momentos de alta-tensão.

Naquele lugar vazio, despido e desprovido de vida. Uma casa. O seu lugar. Entra e procura no peso das cores fortes de cada divisão, o outro pedaço de si, a meia-luz. Mas não há nada para o reconfortar, abraça-o apenas uma solidão triste, fria e desengonçada, a presença de todos os dias. Já está tão habituado que nem repara.

Cansado e desgastado depois de mais um dia de trabalho, senta-se na sala, sozinho, decide ficar a pensar. Uma banda sonora qualquer faz-se ouvir. Relaxa, descontrai, fecha os olhos para o mundo e adormece num sono profundo. Sonha e Sorri. Talvez esteja a sonhar com o que desejaria que fosse diferente. Uma mudança aqui, outra acolá, que o fazem estremecer durante o sono e que, quem sabe, não o ajudem a encontrar o pretérito perfeito da sua vida.

Um homem chega a casa e… Há um cheiro no ar, forte, intenso e adocicado. Já não ouve aquele silêncio ensurdecedor do costume, que deixa lentos os seus passos e carregada a expressão do seu rosto. Alguém o recebe de volta a casa, com um sorriso nos lábios e muito amor para dar, beijam-se, tocam-se e entreolham-se, ela abraça-o e trocam dialectos de ternura. Tudo muda, os espaços em branco do corpo daquele homem ficam completamente preenchidos e o seu coração quente e reconfortado. Alma nova.

A figura feminina ajuda-o a despir o casaco e encaminham-se para a sala. Música ambiente, romântica e calma, sorri, parece que conhece a melodia, é-lhe mesmo familiar. Jantar à luz das velas. Conversam e partilham-se com emoção. Deliciam-se com o aroma a rosas difundido pelo ar e com a mistura de sabores que lhes confundem os sentidos.

Enquanto se envolvem e dançam, juntos, corpo a corpo e olhos nos olhos, como um só. O vinho que balança nos copos que trazem na mão descreve em poucas palavras o que sentem um pelo outro. Vinho “Amo-te”, lê-se na garrafa.

A noite prolonga-se numa intensidade que parece não querer abrandar. De repente, o homem acorda, ao seu lado está a mesma figura feminina do sonho, a mesa está posta, a melodia continua a tocar baixinho.

Sonho ou pura realidade?!

Há coisas difíceis de explicar.

 

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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