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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

02
Mai18

"Vida por um Fio" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Conhecemos-nos faz hoje um ano e meio, numa daquelas situações de mero acaso, quando menos se espera. Era um Sábado, final da manhã, hora quase de almoço, eu tinha acabado de sair do cabeleireiro, pois, à noite ia ter uma festa muito importante e gosto sempre de estar bonita e arranjada, gosto essencialmente de me sentir bem comigo própria, sempre fui bastante vaidosa e muito exigente com a imagem. Sempre me demorei imenso tempo a arranjar desde muito nova.


Ia a caminho de casa, quando, a determinada altura o carro começou a desviar-se para a berma, a direcção do carro parecia difícil de controlar, abrandei, encostei e parei. Saí do carro e descobri que tinha um furo num pneu: “Ora bolas, estava à espera de tudo menos daquilo”. A estrada era isolada e não havia grandes carros a passar, vesti o colete, pus o triângulo e já ia pegar no telefone para pedir auxílio quando uma mota parou a escassos metros de mim. Um homem alto, magro e bem constituído, vestido de negro, calças pretas de cabedal, casaco preto, botas e de capacete na cabeça, saltou da mota, tirou o capacete e dirigiu-se a mim:

– “Precisa de ajuda?”
Era tão giro e charmoso… Fiquei de olhos postos nele o tempo todo.
– Receio bem que sim, tive um furo num pneu e muito sinceramente, confesso que não tenho jeito nenhum para isto.
– Não se preocupe, eu ajudo-a! – Disse ele sorrindo – Já agora, deixe-me apresentar, chamo-me Samuel.
– Muito prazer, eu sou a Rita!

E ele começou imediatamente a despir o casaco e a arregaçar as mangas da t-shirt branca que trazia vestida. Abriu a mala do carro e começou a tirar o pneu suplente, o macaco e o utensílio para desaparafusar as porcas do pneu furado. Tinha uns músculos incríveis, e uma força impressionante, deixei-me ficar encostada ao carro a vê-lo trabalhar. Ele disse não precisar de ajuda.

Meia hora mais tarde, o carro estava como novo.

– Pronto! Já está! Já pode seguir viagem sem problemas, no entanto convém, logo que possa, levar o carro a uma oficina para arranjar o pneu furado e ver os outros; a partida, parecem-me estar bons.
– Amanhã já trato disso. Muito obrigada, nem sei como lhe heide agradecer a grande ajuda que me deu, quanto lhe devo?
– Nada! Não precisa de me pagar nada, fi-lo com todo o gosto.
– Mas isso não está certo, teve imenso trabalho.
– Oh! Deixe lá isso!
– Mas assim não me sinto bem…
– Então… Combinamos um café? Paga a Rita.
– Pode ser!

Trocamos números de telefone, dali a dois dias o Samuel ligou-me e marcamos um novo encontro, numa pastelaria mesmo junto ao meu trabalho. Estivemos quase duas horas a conversar; depois do primeiro encontro, no regresso a casa, vim o caminho todo a pensar que já o conhecia de qualquer lado, mas, não sabia de onde. Acabei por descobrir que afinal, já nos tínhamos cruzado algumas vezes na rua.

O Samuel contou-me quase tudo acerca da sua paixão pelas motas e pela adrenalina da velocidade, fiquei deliciada a ouvi-lo, falou-me das expedições que fazia, das concentrações em que participava, as amizades que fazia e também dos sustos que já tinha apanhado na estrada. Felizmente, não tinham passado de sustos.

Aproveitei e contei-lhe tudo sobre a minha paixão pela pintura, os quadros que já tinha pintado, o meu mais recente trabalho e as exposições que já tinha feito. Parecia termos encontrado algo que nos fascinava um no outro, começamos a combinar saídas uma vez por semana, depois aos fins-de-semana e por fim surgiu a atração física um pelo outro, a paixão e o pedido de namoro. Eu gostava dele e ele parecia estar bastante interessado, em mim.

Apesar de tudo o que tínhamos assumido, e de já partilharmos casa, continuamos a fazer vidas completamente independentes, eu continuei a dedicar uma boa parte do meu tempo livre à pintura e ele às motas.

Era a primeira concentração em que ele participava, desde que estávamos juntos, parecia ainda mais entusiasmado que o normal, insistiu até ao fim para que eu o acompanhasse; mas eu decidi não ir, estava cheia de trabalho e aquele tipo de aventuras não eram bem o meu género. Não me via mesmo a participar naquele tipo de coisas. Ele compreendeu, ia ficar uma semana sem ele; mas, prometeu ligar-me todos os dias.

O dia do seu regresso estava muito perto, faltavam dois dias para o fim-de-semana, eu andava excitadíssima e entusiasmadíssima, já tinha muitas saudades dele, a ansiedade era enorme, mas, houve um dia em que ele não ligou, nem deu notícias. Tentei-lhe ligar imensas vezes e nada, o telemóvel continuava sempre desligado. Fiquei preocupadíssima e num desassossego horrível, mal dormi. A meio da noite, o telefone tocou, uma pessoa que eu não conhecia acabava de me dar a pior das notícias, o Samuel tinha tido um acidente muito grave no último dia da concentração, em pleno desfile de despedida. Um carro desgovernado tinha chocado frontalmente com a mota do Samuel, fazendo com que ele fosse projectado a vários quilómetros de distância, disseram-me que estava em coma e em estado crítico, o prognóstico era muito reservado e a situação muito grave.

Entrei em pânico, fiquei em choque, não queria acreditar, não era possível, eu amava o Samuel e ele não merecia nada daquilo, as motas pareciam querer roubar-mo a todo o custo, chorei imenso ao telefone, a voz parecia querer falhar. Escrevi num papel a morada do hospital, algures em Espanha, a letra tremida, quase impercetível, as lágrimas a borratarem a maquilhagem e a humedecerem a tinta no papel, os nervos à flor da pele, fiz a mala e de manhã bem cedo apanhei o avião.

Não me deixaram logo ver o Samuel, mas o médico com quem falei disse-me que a percentagem de sobrevivência era muito pequena, fiquei de rastos. Não estava minimamente preparada para ouvir aquilo, para a possibilidade de vir a perder a pessoa que mais gostava e amava, naquele momento, dava tudo para que pudesse fazer qualquer coisa por ele. Para trocar de lugar com ele.

Só dois dias mais tarde, é que pude vê-lo, mas apenas do lado de fora da enfermaria, desde a janela. O Samuel estava rodeado de tubos e de máquinas, estava adormecido e parecia uma estátua naquela cama, estava imóvel, nem o respirar se ouvia, custou-me a vida vê-lo naquele estado, queria tanto estar lá ao pé dele, poder tocar-lhe, dar-lhe a mão, dar-lhe um beijo. Mostrar-lhe que estava lá com ele, que tinha que lutar pela vida com todas as suas forças, que tinha que ter coragem. Que nunca jamais, o deixaria ou abandonaria. Pedir-lhe que não me deixasse. Não pude.

Passaram 10 meses, contra todas as previsões, o Samuel recuperou alguma coisa, acordou do coma, fala, recuperou alguns movimentos, consegue sentar-se e comer sozinho; mas, infelizmente, uma lesão irreversível na medula óssea fez com que muita coisa mudasse radicalmente na sua vida. Ser forçado a abandonar as motas foi a pior coisa que lhe podia ter acontecido, sim, custou-lhe imenso a aceitar e os primeiros tempos foram bastante complicados, a fase de negação do Samuel em relação à sua actual situação trouxe momentos de grande tensão, com o Samuel a querer desistir a toda a força da vida. Questionaca-se constantemente sobre o que estaria a fazer cá, dizia que para ficar assim toda a vida, não valia a pena, preferia morrer. Expliquei-lhe que pior que isso, foi o facto de as motas quase lhe terem roubado a vida e durante muito tempo, ele ficou a pensar nisso.

Ainda durante a fase de internamento, pedi o Samuel em casamento, queria provar-lhe que independentemente de tudo, eu estava cá para ele; para o que desse, e viesse, que nunca, jamais iria desistir dele devido ao que lhe tinha acontecido. Estava disposta a assumir um compromisso para toda a vida com ele. Quem testemunhou a nossa união disse que foi a maior prova de amor que alguém lhe podia ter dado. Acho que foi isso que fez o Samuel mudar radicalmente de atitude, deu-lhe algum ânimo e força. Ainda me lembro das palavras dele: Obrigada por tudo, Rita! E sorriu, como já não o via sorrir, há muitos meses.
Ontem disse-me que foi convidado por uma associação para ir contar a sua história, começou por me dizer que iria recusar o convite, que não se achava preparado para dar esse passo, no entanto, fi-lo perceber que talvez fosse bom para ele falar sobre o assunto, partilhar o seu caso, iria acabar por descobrir pessoas que teriam passado por situações semelhantes. E assim foi…

No final do encontro, vinha com os olhos a brilhar e com um enorme sorriso.

– Então, que tal correu?
– Uma maravilha, há muito tempo que não me sentia tão feliz e realizado.
– Eu não disse?
– Por um lado custou-me ver tantas pessoas a passar por situações como a minha, e outras a passar por situações bem piores, mas por outro lado, saber que fui uma grande ajuda para essas pessoas, que as incentivei a não desistirem, a lutarem, a terem coragem e força e a vencerem esta dura batalha com determinação, deixa-me de coração cheio.
– Que bom, fico mesmo feliz por ti!
– Obrigado por me teres incentivado a ir em frente com este projecto.
– Projecto?
– Sim, já me fizeram chegar mais convites.
– Tenho imenso orgulho em ti!
– Sabes, amor, no fim da conversa, um rapaz de apenas 18 anos, aproximou-se de mim, perguntou-me se me podia dar um abraço. E depois disse-me: És um grande exemplo e uma referência para todos nós. Admiro-te muito. Encheu-me a alma ouvir estas palavras, tocaram-me tanto, acredita que deixaram uma grande marca em mim e agora chego à conclusão que afinal viver vale mesmo a pena.

Mesmo que fosse em duas rodas…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

25
Mar18

"Brincadeiras"

João Jesus e Luís Jesus

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Alguém tinha acabado de entrar no seu quarto. Bateu com a porta de força e trancou-a à chave.

- Lucas? - Perguntou quando o viu

Este deixou-se cair no chão.

- Encontraram-no. - Disse, com as mãos na cabeça - Encontraram-no, Rui! Estamos lixados!

Rui sentiu o coração parar. Não podia ser! Não o podiam ter encontrado!

- Raios! Raios, raios, raios! - Gritou

- E agora o que fazemos? - Disse Lucas, apavorado

Rui continuou com a cabeça baixa a olhar para o tapete do seu quarto.

- Foi tudo culpa nossa. Eu sabia que era má ideia. - Queixou-se Rui

- O quê? Ambos alinhamos na brincadeira! Queres mandar as culpas para cima de mim, como sempre, não é? - Gritou Lucas, enfurecido

Rui suspirou.

- É verdade.

Lucas começara a chorar.

- Não consigo viver com isto! Ele nunca teria saltado para a água se não o tivessemos encorajado. - Gemeu Lucas

- Não foi bem encorajar. Nós chamamos-lhe nomes! Ele queria ser corajoso e saltou. - Sussurrou Rui

A história do seu amigo passou-lhes nas cabeças.

Estava um dia nublado, quase a chover. Foram todos juntos às falésias, onde costumavam saltar para a água no Verão. 

Levavam consigo o seu amigo, Fernando. Este era o menos corajoso dos dois, um aluno estudioso e bom rapaz. Porém, naquele dia eles queriam divertir-se.

Juntaram-se nas falésias. 

- 'Bora dar um salto? - Perguntou Lucas

- Népias! Deve estar gelada! - Disse Rui

Fernando não falou. Nunca tinha saltado dali, nem no Verão. Tinha medo.

- E tu Fernando? Nunca saltas-te! Primeiro tu e depois vou eu. - Encorajou Rui

- Nem pensar! Que horror. - Queixou-se Fernando

Os dois riram-se do amigo.

- Anda lá! Diverte-te um pouco! - Disse Lucas, mexendo no cabelo do amigo - Precisas de um pouco de loucura. Se estiveres em apuros nós salvamos-te.

Fernando não queria ir. 

- Não. Não vou.

- Oh anda lá, Nando! Não sejas um pita! - Disse Rui entre risos

- Cócórócó! - Imitou Lucas, atrás do amigo - Pita!

Fernando detestava quando lhe chamavam nomes. 

- Ok. Eu vou, mas eu mato-vos se morrer. - Disse, enquanto tirava a camisola e as calças

Os amigos sorriram. Era a primeira vez que Fernando alinhava em alguma coisa.

- Pronto? - Perguntou Rui

- É agora ou nunca, Nando! - Disse Lucas, sorridente

Fernando olhou para a água. Estava um pouco agitada e parecia gelada. 

- Ok! Aqui vou! - Respirou fundo

- Força! 

- Tu consegues.

Passados alguns segundos, Fernando tomou coragem e saltou para as águas.

Rui e Lucas esperaram alguns segundos para ver o amigo emergir. Mas nada. Esperaram mais um pouco.

- Rui?! - Disse Lucas, já com medo

- Terá acontecido algo? - Perguntou Rui já cheio de medo

- Fernando! - Gritaram os dois, em conjunto para as águas lá em baixo

Mas nada. Fernando não aparecia. Se ainda estava lá, devia estar quase sem ar.

- Vou saltar. - Disse Lucas, enquanto se preparava para saltar

- Nem penses, Lucas! Acho melhor chamarmos a policia e depressa! - Disse Rui - Ainda ficas lá também.

Aterrorizados ligaram para a polícia e inventaram uma história rápida. Disseram que Fernando os queria impressionar e escorregou.

- O que fizemos? - Disse Rui, entre dentes

- Fizemos porcaria. - Completou Lucas

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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