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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

23
Mai18

"Gosto de Te Ter Por Perto" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Gosto de te ter por perto. Gosto da tua presença. Gosto de te sentir aqui. Gosto de saber que posso contar sempre contigo, todos os dias, a qualquer hora. Gosto que as tuas palavras me façam sorrir naquele gesto simples do dia; do momento. Que o teu olhar me aqueça. Que faças parte do que sou. Gosto daquilo que nos une e daquilo que nos separa. Gosto quando te lembras de mim; quando te preocupas. Quando és tu.

Hoje apeteceu-me ouvir-te naquela música que tem o ritmo do bater do teu coração, o teu rosto, a tua voz, a adrenalina da tua pele, a tua energia. O que tu és.

Fiquei de olhos fechados ao sol a sentir-te, a ouvir-te. A recordar quando a ouvi pela primeira vez… Contigo a meu lado. Tinha saudades disto (de ti). As nossas mãos entrelaçadas, aquele abraço, aquele beijo no escuro que nos embala, balança e apaixona. O – nosso – amor.

Escrevo a pensar em ti. Muito em ti.

Gosto tanto dele e então?

Faz-me muito feliz.

Gosto te ter por perto. Sempre.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

16
Mai18

"Cintura a Menos" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Sofia nunca fora uma jovem inteiramente feliz; nem interiormente sossegada. Desde muito nova que convivia diariamente com o problema da obesidade – fruto de uma alteração de nascença na Tiroide, que a fazia aumentar de peso quase descontroladamente por causa da medicação que tinha que fazer –; por mais dietas que fizesse, o seu peso não baixava dos 80Kg e a fome que sentia a todas as horas era incontrolável, para além disso, não era capaz de resistir a doces.

Apesar de Sofia ter consciência das consequências do seu problema – quer para a sua saúde, quer para a sua vida –, vivia atormentada, angustiada e desesperada. Tinha 21 anos, nunca tinha tido namorado (como poderia alguém apaixonar-se por uma miúda baixa e gorda como ela? Jamais olhariam para si e a pediriam em namoro; nenhum rapaz quereria sair com uma pessoa assim, pensava ela), era de estatura baixa, tinha olhos castanhos cor de mel, cabelo castanho-escuro encaracolado e sempre sonhara ter um corpo como o das raparigas que via na televisão e nas revistas. Só assim seria feliz e se sentiria bem consigo mesma e com o seu corpo.

Não gostava do que via ao espelho quando tomava banho e se olhava, não gostava de si própria, do seu corpo, não queria viver, desejava todos os dias não ter nascido e muito menos detestava viver para sempre com aquele maldito problema na tiroide que lhe tinha roubado todos os seus sonhos e aspirações. Já tinha pedido ajuda a vários médicos nutricionistas, já tinha experimentado os mais diversos ginásios e não havia meio de o peso diminuir.

No ceio dos seus amigos, Sofia era gozada por algumas pessoas devido ao excesso de peso (tinha gordura acumulada em várias partes do corpo nomeadamente na barriga, braços e pernas); pois, não podia vestir-se na maioria das mesmas lojas que as suas amigas porque não havia tamanhos para ela, era uma costureira da sua mãe que lhe fazia as roupas por medida. Sentia que nunca estava na moda, que as roupas que usava não tinham o mesmo brilho e a mesma classe das que as suas amigas usavam. Para além disso, fosse qual fosse a estação do ano, Sofia vestia-se sempre de cores muito escuras, que falavam por si e demonstravam o seu estado de espírito. Era apelidada de: gorda balofa; monte de banhas; papa-bolos entre outros insultos que a deixavam muito triste. Desde a entrada para o ensino básico, algures pelo 5º ano, que Sofia sofria de bullying, não contava nada a ninguém; sofria calada. Ouvia e engolia tudo.

Já tinham sido várias as depressões porque tinha passado, sem nunca ninguém saber o verdadeiro motivo; um dia, Sofia acordou determinada a mudar a sua vida. Estava farta de se olhar ao espelho e ver sempre aquela imagem deselegante, grosseira, feia.

Sofia, num desespero inexplicável, decidiu experimentar uma dieta descontrolada feita por si, sem o aconselhamento de nenhum profissional; e deixou de comer. Ao longo de todo o dia Sofia bebia água e comia uma única peça de fruta, sim, tinha fome (muita fome!); afastou-se dos amigos por não conseguir vê-los comer. Na sua mente Sofia acreditava que tinha que aguentar aquele sacrifício se queria perder peso e obter a forma física que tanto desejava. Para além da má alimentação, Sofia passou a ser uma obcecada com o exercício físico, todo o tempo livre que tinha era para estar no ginásio a levar o seu corpo ao limite, era acompanhada por Rodrigo, personal trainer, por quem se apaixonou. O que intensificou ainda mais a sua obsessão.

Passou um mês. Passaram dois meses. Passaram três meses. Sofia continuava com a sua dieta exagerada e desadequada e com o desporto fora de controlo; faltava às aulas (havia muitos dias que nem ia à escola!) e isso começou a trazer graves problemas de saúde para ela. Começou a ficar mais cansada, fraca, sem autoestima, sem motivação para fazer coisas simples e o que mais gostava (ler, desenhar, ouvir música, brincar com a gata Luna, rir…), sem vontade de sair com os amigos, de conviver com a família; tinha dores de cabeça fortes, crises de ansiedade, insónias e sempre que era obrigada a ingerir uma refeição normal, no minuto seguinte corria para a casa-de-banho para a deitar fora. Sempre que se via ao espelho, achava-se gorda, parecia que quanto menos comia mais engordava. Em pouco mais de um mês Sofia tinha perdido quase 30 Kg, toda a gente notava as diferenças mas ninguém lhes dava o devido valor; para os pais, finalmente Sofia tinha decidido emagrecer.

Numa das suas, muitas, sessões de ginásio, Sofia teve um desmaio e foi levada de urgência para o hospital. Esteve vinte e quatro horas em observação, até os médicos descobrirem o seu verdadeiro problema; Sofia tinha anorexia nervosa e bulimia.

Para os pais foi um choque, nunca se tinham apercebido das loucuras da filha e agora ela estava praticamente a morrer. O corpo de Sofia estava exausto, as defesas do seu organismo já não tinham forças para lutar e reverter a situação, a situação era muito grave. Sofia pesava 35kg, parecia um esqueleto no corpo de uma jovem que tinha tudo para ser feliz e ter uma vida normal. Não sabiam se ela se salvaria.

Rodrigo, que tinha socorrido Sofia quando ela desmaiou, estava visivelmente preocupado, pois, apesar de não ter dito nada, tinha-se apercebido das mudanças radicais.

Alguns dos seus amigos, aqueles que gozavam consigo, também mudaram radicalmente de atitude e ficaram visivelmente transtornados quando souberam do que se passava com a Sofia. Passando a visitá-la todos os dias, alguns até se ofereceram para ficar com ela na enfermaria durante a noite.

A muito custo e com o apoio de todos os que mais amava, Sofia superou a doença, foi melhorando aos poucos, ficou fora de perigo e saiu dos cuidados intensivos, passou a ter acompanhamento psiquiátrico quase diário durante alguns meses assim como o acompanhamento de uma nutricionista que a reensinou a comer. Rodrigo foi das pessoas que mais a apoiou e ajudou (sem se quer imaginar, que Sofia se tinha apaixonado por ele).

Meio ano mais tarde, Sofia já se sentia muito melhor, estava praticamente recuperada; apesar de continuar a ir às consultas com a nutricionista e o psiquiatra. Tinha recuperado a forma física e a vontade de viver, a medicação que tomava para o problema da tiroide também tinha sido reajustada. Sofia já era capaz de fazer uma alimentação equilibrada e de fazer exercício físico sem exageros, todos os dias corria com o Rodrigo no parque.

Hoje ia ser um dia especial… Sofia ganhou coragem para fazer uma coisa:

– Rodrigo… Tu… Queres namorar comigo? – Perguntou-lhe a medo.
– É claro que sim, Sofia!
– Não tens vergonha de mim, por causa do que se passou?
– Nada disso! Sofia lembra-te sempre que o mais importante, é nós gostarmos de nós próprios, e que os outros nos aceitem tal como somos. Eu gosto de ti assim, gosto desta Sofia de hoje, de agora, que está aqui à minha frente e não daquela Sofia doente que vi no hospital.

Sorriram um para o outro e trocaram o primeiro beijo.

Sofia e Rodrigo estão juntos há 5 anos e Sofia está prestes a contar a sua história ao mundo.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

02
Mai18

"Vida por um Fio" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Conhecemos-nos faz hoje um ano e meio, numa daquelas situações de mero acaso, quando menos se espera. Era um Sábado, final da manhã, hora quase de almoço, eu tinha acabado de sair do cabeleireiro, pois, à noite ia ter uma festa muito importante e gosto sempre de estar bonita e arranjada, gosto essencialmente de me sentir bem comigo própria, sempre fui bastante vaidosa e muito exigente com a imagem. Sempre me demorei imenso tempo a arranjar desde muito nova.


Ia a caminho de casa, quando, a determinada altura o carro começou a desviar-se para a berma, a direcção do carro parecia difícil de controlar, abrandei, encostei e parei. Saí do carro e descobri que tinha um furo num pneu: “Ora bolas, estava à espera de tudo menos daquilo”. A estrada era isolada e não havia grandes carros a passar, vesti o colete, pus o triângulo e já ia pegar no telefone para pedir auxílio quando uma mota parou a escassos metros de mim. Um homem alto, magro e bem constituído, vestido de negro, calças pretas de cabedal, casaco preto, botas e de capacete na cabeça, saltou da mota, tirou o capacete e dirigiu-se a mim:

– “Precisa de ajuda?”
Era tão giro e charmoso… Fiquei de olhos postos nele o tempo todo.
– Receio bem que sim, tive um furo num pneu e muito sinceramente, confesso que não tenho jeito nenhum para isto.
– Não se preocupe, eu ajudo-a! – Disse ele sorrindo – Já agora, deixe-me apresentar, chamo-me Samuel.
– Muito prazer, eu sou a Rita!

E ele começou imediatamente a despir o casaco e a arregaçar as mangas da t-shirt branca que trazia vestida. Abriu a mala do carro e começou a tirar o pneu suplente, o macaco e o utensílio para desaparafusar as porcas do pneu furado. Tinha uns músculos incríveis, e uma força impressionante, deixei-me ficar encostada ao carro a vê-lo trabalhar. Ele disse não precisar de ajuda.

Meia hora mais tarde, o carro estava como novo.

– Pronto! Já está! Já pode seguir viagem sem problemas, no entanto convém, logo que possa, levar o carro a uma oficina para arranjar o pneu furado e ver os outros; a partida, parecem-me estar bons.
– Amanhã já trato disso. Muito obrigada, nem sei como lhe heide agradecer a grande ajuda que me deu, quanto lhe devo?
– Nada! Não precisa de me pagar nada, fi-lo com todo o gosto.
– Mas isso não está certo, teve imenso trabalho.
– Oh! Deixe lá isso!
– Mas assim não me sinto bem…
– Então… Combinamos um café? Paga a Rita.
– Pode ser!

Trocamos números de telefone, dali a dois dias o Samuel ligou-me e marcamos um novo encontro, numa pastelaria mesmo junto ao meu trabalho. Estivemos quase duas horas a conversar; depois do primeiro encontro, no regresso a casa, vim o caminho todo a pensar que já o conhecia de qualquer lado, mas, não sabia de onde. Acabei por descobrir que afinal, já nos tínhamos cruzado algumas vezes na rua.

O Samuel contou-me quase tudo acerca da sua paixão pelas motas e pela adrenalina da velocidade, fiquei deliciada a ouvi-lo, falou-me das expedições que fazia, das concentrações em que participava, as amizades que fazia e também dos sustos que já tinha apanhado na estrada. Felizmente, não tinham passado de sustos.

Aproveitei e contei-lhe tudo sobre a minha paixão pela pintura, os quadros que já tinha pintado, o meu mais recente trabalho e as exposições que já tinha feito. Parecia termos encontrado algo que nos fascinava um no outro, começamos a combinar saídas uma vez por semana, depois aos fins-de-semana e por fim surgiu a atração física um pelo outro, a paixão e o pedido de namoro. Eu gostava dele e ele parecia estar bastante interessado, em mim.

Apesar de tudo o que tínhamos assumido, e de já partilharmos casa, continuamos a fazer vidas completamente independentes, eu continuei a dedicar uma boa parte do meu tempo livre à pintura e ele às motas.

Era a primeira concentração em que ele participava, desde que estávamos juntos, parecia ainda mais entusiasmado que o normal, insistiu até ao fim para que eu o acompanhasse; mas eu decidi não ir, estava cheia de trabalho e aquele tipo de aventuras não eram bem o meu género. Não me via mesmo a participar naquele tipo de coisas. Ele compreendeu, ia ficar uma semana sem ele; mas, prometeu ligar-me todos os dias.

O dia do seu regresso estava muito perto, faltavam dois dias para o fim-de-semana, eu andava excitadíssima e entusiasmadíssima, já tinha muitas saudades dele, a ansiedade era enorme, mas, houve um dia em que ele não ligou, nem deu notícias. Tentei-lhe ligar imensas vezes e nada, o telemóvel continuava sempre desligado. Fiquei preocupadíssima e num desassossego horrível, mal dormi. A meio da noite, o telefone tocou, uma pessoa que eu não conhecia acabava de me dar a pior das notícias, o Samuel tinha tido um acidente muito grave no último dia da concentração, em pleno desfile de despedida. Um carro desgovernado tinha chocado frontalmente com a mota do Samuel, fazendo com que ele fosse projectado a vários quilómetros de distância, disseram-me que estava em coma e em estado crítico, o prognóstico era muito reservado e a situação muito grave.

Entrei em pânico, fiquei em choque, não queria acreditar, não era possível, eu amava o Samuel e ele não merecia nada daquilo, as motas pareciam querer roubar-mo a todo o custo, chorei imenso ao telefone, a voz parecia querer falhar. Escrevi num papel a morada do hospital, algures em Espanha, a letra tremida, quase impercetível, as lágrimas a borratarem a maquilhagem e a humedecerem a tinta no papel, os nervos à flor da pele, fiz a mala e de manhã bem cedo apanhei o avião.

Não me deixaram logo ver o Samuel, mas o médico com quem falei disse-me que a percentagem de sobrevivência era muito pequena, fiquei de rastos. Não estava minimamente preparada para ouvir aquilo, para a possibilidade de vir a perder a pessoa que mais gostava e amava, naquele momento, dava tudo para que pudesse fazer qualquer coisa por ele. Para trocar de lugar com ele.

Só dois dias mais tarde, é que pude vê-lo, mas apenas do lado de fora da enfermaria, desde a janela. O Samuel estava rodeado de tubos e de máquinas, estava adormecido e parecia uma estátua naquela cama, estava imóvel, nem o respirar se ouvia, custou-me a vida vê-lo naquele estado, queria tanto estar lá ao pé dele, poder tocar-lhe, dar-lhe a mão, dar-lhe um beijo. Mostrar-lhe que estava lá com ele, que tinha que lutar pela vida com todas as suas forças, que tinha que ter coragem. Que nunca jamais, o deixaria ou abandonaria. Pedir-lhe que não me deixasse. Não pude.

Passaram 10 meses, contra todas as previsões, o Samuel recuperou alguma coisa, acordou do coma, fala, recuperou alguns movimentos, consegue sentar-se e comer sozinho; mas, infelizmente, uma lesão irreversível na medula óssea fez com que muita coisa mudasse radicalmente na sua vida. Ser forçado a abandonar as motas foi a pior coisa que lhe podia ter acontecido, sim, custou-lhe imenso a aceitar e os primeiros tempos foram bastante complicados, a fase de negação do Samuel em relação à sua actual situação trouxe momentos de grande tensão, com o Samuel a querer desistir a toda a força da vida. Questionaca-se constantemente sobre o que estaria a fazer cá, dizia que para ficar assim toda a vida, não valia a pena, preferia morrer. Expliquei-lhe que pior que isso, foi o facto de as motas quase lhe terem roubado a vida e durante muito tempo, ele ficou a pensar nisso.

Ainda durante a fase de internamento, pedi o Samuel em casamento, queria provar-lhe que independentemente de tudo, eu estava cá para ele; para o que desse, e viesse, que nunca, jamais iria desistir dele devido ao que lhe tinha acontecido. Estava disposta a assumir um compromisso para toda a vida com ele. Quem testemunhou a nossa união disse que foi a maior prova de amor que alguém lhe podia ter dado. Acho que foi isso que fez o Samuel mudar radicalmente de atitude, deu-lhe algum ânimo e força. Ainda me lembro das palavras dele: Obrigada por tudo, Rita! E sorriu, como já não o via sorrir, há muitos meses.
Ontem disse-me que foi convidado por uma associação para ir contar a sua história, começou por me dizer que iria recusar o convite, que não se achava preparado para dar esse passo, no entanto, fi-lo perceber que talvez fosse bom para ele falar sobre o assunto, partilhar o seu caso, iria acabar por descobrir pessoas que teriam passado por situações semelhantes. E assim foi…

No final do encontro, vinha com os olhos a brilhar e com um enorme sorriso.

– Então, que tal correu?
– Uma maravilha, há muito tempo que não me sentia tão feliz e realizado.
– Eu não disse?
– Por um lado custou-me ver tantas pessoas a passar por situações como a minha, e outras a passar por situações bem piores, mas por outro lado, saber que fui uma grande ajuda para essas pessoas, que as incentivei a não desistirem, a lutarem, a terem coragem e força e a vencerem esta dura batalha com determinação, deixa-me de coração cheio.
– Que bom, fico mesmo feliz por ti!
– Obrigado por me teres incentivado a ir em frente com este projecto.
– Projecto?
– Sim, já me fizeram chegar mais convites.
– Tenho imenso orgulho em ti!
– Sabes, amor, no fim da conversa, um rapaz de apenas 18 anos, aproximou-se de mim, perguntou-me se me podia dar um abraço. E depois disse-me: És um grande exemplo e uma referência para todos nós. Admiro-te muito. Encheu-me a alma ouvir estas palavras, tocaram-me tanto, acredita que deixaram uma grande marca em mim e agora chego à conclusão que afinal viver vale mesmo a pena.

Mesmo que fosse em duas rodas…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

25
Abr18

"Amor em 2a Mão" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Estávamos a meio do nosso Interrail, a primeira grande viagem que os meus pais me deixavam fazer sozinha. Estava encantada da vida com ele a meu lado, era a viagem com que sonhava todas as noites de há uns tempos para cá.

Partir assim com ele, sem destino, de mochila às costas; saímos do nosso Alentejo, apanhamos o autocarro até Lisboa e depois seguimos de comboio até Madrid, tínhamos planeado ir visitar algumas capitais da Europa como: Madrid, Paris, Berlim e Munique.
Esses eram os destinos que tínhamos escolhido para fazermos nitidamente uma viagem de sonho, a dois.

Os dias que passamos em Madrid foram mágicos, visitamos tudo, percorremos quase a cidade toda, passeamos, fomos ao Santiago Bernabeu assistir a um jogo do Real Madrid, vibramos com o Cristiano Ronaldo, tiramos fotografias, fomos jantar fora e deliciamo-nos com a Paella e o Flamenco. Foi um dia bastante preenchido, aproveitamos o tempo todo ao máximo, foi mesmo até à última gota, apesar de, os telemóveis não terem parado de tocar, coisa de pais-galinha. Faz parte…

No dia seguinte, fizemos novamente as malas, apanhamos o comboio e… Hasta la vista España; Bonjour Paris. Caía a noite quando a cidade do amor nos deu as boas-vindas, eu estava completamente nas nuvens porque nunca tinha ido a Paris, era a primeira vez que visitava a cidade.
Mas desde a partida para Madrid que algo assombrava os nossos planos, a descoberta que tinha feito de véspera, que não sabia como contar ao Rodrigo.

Na véspera da partida para Madrid, descobri que desde pequenina que tinha um problema congénito de coração que podia ser fatal a qualquer momento. Fiquei em choque e em pânico quando os meus pais me contaram, fiquei sem saber o que fazer e o que dizer, como reagir, como lidar com aquela notícia tão inesperada, tinha sido completamente apanhada de surpresa. Culpei os meus pais por nunca me terem contado nada, por só agora o fazerem. Disseram que era para me protegerem, e a partir desse momento comecei a perceber tudo imediatamente, o porquê de desde muito cedo andarem sempre excessivamente preocupados comigo, o medo e o receio das minhas saídas com as amigas, dos esforços, o facto de terem ficado muito renitentes quando lhes falei daquela viagem.

Chorei, chorei amargamente, isolei-me no meu quarto, não jantei nada, precisava muito de tempo e espaço, de pensar, porque queria muito fazer aquela viagem, era o meu sonho e não ia ser aquela maldita doença no coração que me iria impedir de o concretizar.

Só muito mais tarde voltei a falar com os meus pais, pedi-lhes muito, supliquei e implorei que me deixassem ir, que confiassem em mim, que eu me iria portar bem, que iria ter todos os cuidados e mais alguns. Depois de tantas conversas e de muita insistência, disseram que Sim. Fiquei radiante, mas ainda havia outro problema…

O Rodrigo.

Passei a noite inteira a pensar como havia de lhe contar tudo.

E foi em Paris que tudo aconteceu, à noite, durante o primeiro passeio que demos pela cidade contei-lhe tudo, ao início ficou estático e muito calado a olhar para mim, sem saber o que dizer e o que fazer e sem conseguir acreditar. Expliquei-lhe tudo sem lhe esconder nada, abraçou-me, chorou e disse que jamais me iria deixar, que iria estar sempre ao meu lado a apoiar-me. Fiquei muito mais aliviada e beijei-o apaixonadamente.

Inexplicavelmente, durante a noite, eu comecei a sentir-me mal, com falta de ar, e arritmia cardíaca, o Rodrigo pegou em mim e levou-me logo ao hospital mais próximo, onde fiquei em observação. Quando acordei passadas algumas horas, estava sozinha na enfermaria do hospital, apenas se ouvia o burburinho de enfermeiros e pessoas a entrar e a sair, explicaram-me tudo o que se tinha passado, acalmei-me, olhei para o lado e em cima da mesa-de-cabeceira encontrei um envelope, peguei nele, abri-o e vi logo que era do Rodrigo, a letra dele era inconfundível. Pedia-me desculpa por tudo, por saber que a decisão, muito ponderada e pensada, que tinha tomado, a mais difícil de todas, iria acabar por me magoar.

Dizia-me que ia voltar para Portugal, as lágrimas começaram logo a cair, foi terrível sentir aquela insensibilidade e indiferença para comigo, que o amava tanto, parecia não querer saber de mim, se estava bem ou melhor pelo menos. Dizia que não podíamos continuar juntos, que por muito que gostasse de mim, não queria viver o resto da vida com o medo constante de me perder. Uma grande desculpa. Fiquei triste e desiludida, magoada, o Rodrigo estava a acabar tudo comigo e acabava de me deixar quando eu mais precisava dele ao meu lado e isso jamais lhe iria perdoar.

Dizia que iria gostar sempre de mim e que eu iria ser sempre uma pessoa muito especial para ele, mas dizer-me isso não chegava, não era suficiente, já não me reconfortava, não preenchia o vazio que eu já estava a sentir dentro de mim, a sensação de ausência de uma das pessoas que eu mais gostava e amava, que achava que sentia o mesmo por mim, mas pelos vistos estava redondamente enganada, que era um amigo de verdade, capaz de estar incondicionalmente ao meu lado. Mas não… Na primeira oportunidade, quando viu que as coisas estavam a começar a complicar-se, quando se sentiu sufocado, abandonou-me. É sempre mais fácil fugir dos problemas do que assumi-los, enfrentá-los e ajudar a resolvê-los.

Dizia ainda que esperava que eu melhorasse depressa e que ficasse bem, que conveniente e que irónico, que me tinha visitado, mas que eu estava a dormir. Despedia-se com um até sempre, pedia-me novamente desculpa e que um dia o conseguisse perdoar.

Ali continuei sozinha, a vislumbrar o branco do tecto, com a tinta a descascar, as manchas de humidade; a solidão a ser o meu corpo, a mágoa o meu coração, continuava a ter o rosto coberto de lágrimas. Não queria acreditar que tinha acabado de perder a pessoa que mais amava. Desejei que o meu mundo, parasse para sempre, para mim, que não tivesse aquela maldita doença para poder recuperar o Rodrigo.

Passou um ano, voltei para o Fábio, já tínhamos namorado há uns tempos, um namoro de curta duração, muito precoce, acabamos por nos separar por causa de uma estúpida discussão. Há quase um ano que não o via, mudou de cidade com os pais, já está na faculdade a tirar Medicina. Agora estamos bem, ele está muito diferente, mudou muito, é muito preocupado, atencioso e dedicado. Ama-me acima de tudo e não se importou nada com o meu problema.

É verdade, fiz um transplante de coração, depois de muitos estudos realizados descobriram que era a única solução para eu ter uma vida normal e sossegada. Apesar de todos os riscos inerentes, aceitei, fui à luta e à aventura, correu tudo bem e agora já posso amar de novo. Os meus pais contaram-me que o Fábio esteve sempre lá comigo o tempo todo, no bloco operatório e durante o tempo de recuperação, lembro-me bem de sentir a mão dele, entrelaçada na minha. Ajudou-me em tudo e foi uma enorme fonte de força, determinação, coragem e inspiração, uma pessoa exemplar. E nunca lhe conseguirei agradecer tudo o que ele me deu nos últimos seis meses.

O Rodrigo?

Nem uma visita, nem um telefonema para saber se eu tinha melhorado, talvez a culpa e o peso de consciência o impeçam de me vir ver, talvez a falta de coragem, não o deixe enfrentar-me.

Nunca mais o vi, mas algumas amigas minhas, disseram-me que continua sozinho.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

18
Abr18

"Quando Tudo Se Conjuga" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Eu estava ali. Com os nervos à flor da pele, sentada na mesa do canto, escondida para que não me visses. Para que nada nosso se reencontrasse, nem um simples olhar.

Os compassos do meu coração como passos de gigante; o desassossego.

E de repente surges inexplicavelmente do nada, passas por mim e sorris com a simplicidade desenhada no olhar e a humildade como contorno dos teus lábios. Desviei o olhar e senti-me a corar, tu sabes sempre como captar a minha atenção, como cativar, como me conquistar.

Já estás farto de saber que adoro o teu sorriso, que me apaixona e que me rendo sempre.
Fiquei a ouvir-te contar histórias com esse sotaque e essa simpatia e dedicação pelas pessoas que tanto te caracteriza e que já sei de cor.

A emoção, a levar a melhor sobre ti, os teus olhos verdes, cor de azeitona, a destacarem-se e a revelarem-te. Sempre a seres tu mesmo. Ris-te e fizeste rir, comoveste-te e emocionas-te. Deste muito de ti.

E no fim estive para ir embora, mas depois não tive coragem e voltei para trás. Estava na hora do reencontro.

Uma troca de olhares, um sorriso, um toque, um cumprimento. A sensação de não saber o que dizer, apesar de te conhecer como a palma da mão. De ter feito parte de ti numa outra fase das nossas vidas.

E conversamos olhos nos olhos.

Procurei-me em ti!

Parte de mim, em ti!

Parte de ti, em mim!

Parte de nós… Para sempre!

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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