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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

03
Jun18

"Sentada no Telhado"

João Jesus e Luís Jesus

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Agarrava-se às telhas com imenso cuidado e subia com delicadeza. Não queria mesmo cair no chão, pois se caísse nunca mais se levantava.

Com imenso cuidado, chegou ao telhado, à parte mais alta daquele orfanato, a que chamava casa.

Porém, nestes dias, ela sentia-se triste. Estava quase a fazer dezoito anos, o que significava que estava quase a ter de sair do orfanato, pois era a idade máxima. Nunca ninguém a adotara devido à cicatriz que tinha numa das bochechas.

Sentou-se no telhado, tirou a mochila das costas e tirou o copo de café e o seu diário. Bebeu um gole do café quente e começou a escrevinhar o que sentia.

Sentia-se mal por ter aquela maldita cicatriz. Aquela cicatriz horrível que foi feita quando ainda vivia com o seu pai, que era um alcoólico tremendo. Todas as noites ele lhe batia, mas naquela noite, decidiu bater-lhe com uma das garrafas espalhadas pela casa.

Lembrava-se da enorme dor que a atravessou quando a garrafa lhe batera na bochecha direita. Sentiu a cara a rebentar, os vidros a espetarem-se na bochecha, o sangue a sair com enorme rapidez.

E depois lembrou-se da sua salvação. Felizmente, a vizinha que era uma coscuvilheira das grandes, ouviu os gritos dela. Ligou para a polícia, prenderam o seu pai e ela foi levada para o orfanato. Tudo isto quando tinha oito anos. Já sofrera muito.

E depois, esperava no orfanato por uma família boa que a fosse acolher. Todas a olhavam com felicidade quando a viam pela primeira vez, mas depois reparavam na enorme cicatriz e nunca mais falavam com ela.

E com o passar dos anos, foi-se mentalizando que nunca seria adotada. Que iria ficar ali, a ver os amigos a sair enquanto ela continuava ali, à espera, com o seu diário no colo.

Deu mais um gole no café e olhou para o horizonte, com as lágrimas das lembranças nos olhos. O sol estava quase a nascer, faltavam apenas alguns minutos.

Não queria ser indesejada para sempre. Queria ser feliz como os amigos. Queria ter uma família para amar, queria sair com os amigos, queria sentir-se amada.

Limpou as lágrimas da cara. O sol começava a sair das colinas.

Levantou-se, prometendo a si mesmo que nunca mais iria ficar à espera. Queria esquecer tudo de mau que aconteceu.

Aproximou-se da beira do telhado, do lado que ficava mais perto do rio e rapidamente, sem grandes pensamentos e num ato de coragem, atirou o diário para a água. Não queria ler mais e relembrar aquelas lembranças terríveis.

Sorriu, com a cara molhada das lágrimas e viu o sol sair do seu esconderijo.

“Um novo começo”, pensou. Estava pronta para começar a viver a sério.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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