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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

15
Mar17

"Uma Alma (demasiado) Aberta" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

Alma

Lília nunca imaginaria que um dia a vida a fosse marcar tão fortemente como aconteceu quando era adolescente. Há certas situações que passamos na vida que dificilmente somos capazes de esquecer por completo, de forma a ser uma perfeita memória: cinzenta, nublada, desfocada, incapaz de voltar a ser reconhecida. De seguirmos em frente sem nos lembrarmos sempre delas.
Tudo começou no início do décimo segundo ano, quando a turma unida, onde todos se conheciam muitíssimo bem, uns aos outros e que desde a primária tinha vindo a acompanhar Lília em todos os anos de escolaridade, recebeu novos elementos vindos de uma outra escola. Rapidamente os novos alunos: três raparigas e um rapaz se integraram no grupo sólido e coeso de que era feita aquela turma de longa data; mas, foi também num ápice que os problemas começaram a surgir.

Lília nunca tinha sido uma jovem muito comunicativa, não tinha o espírito aberto, extrovertido e espontâneo da maioria dos amigos, mas tentava adaptar-se e os colegas também se foram adaptando à sua forma particular de ser. Era uma jovem tímida, algo reservada, que só dava confiança a pessoas que realmente conhecia bem, sempre se tinha conhecido assim, sem saber concretamente o motivo, afinal de contas, cada um tem a sua maneira de e estar. Muitas vezes sem razão…

Quando menos esperavam, a discórdia começou a surgir no cerne daquela turma, que sempre tinha sido tão unida. Passou a existir um choque de personalidades, Alexandra, Daniel e Clara eram rebeldes, aventureiros, partilhavam de opiniões diferentes e gostavam de folia, de lançar a confusão e principalmente de faltar às aulas e tentavam a todo o custo empurrar aquela turma para as suas erradas escolhas. Para além disso, a maneira de ser diferente de Lília começou a espevitar-lhes a curiosidade.

Inicialmente e muito subtilmente, aqueles novos colegas que facilmente tinham conquistado a turma, começaram a “meter-se” com Lília, brincando com a sua timidez, com alguns dos seus gostos e com o seu jeito tímido e reservado de ser. Lília não dava muita importância e chegava a levar aquelas atitudes dos colegas, para a brincadeira, mas o que começou por ser uma brincadeira, num curto espaço de tempo transformou-se em algo mais sério. E inevitavelmente, aqueles que melhor conheciam Lília acabaram por ceder, por não reagir à situação e deixaram-se levar pela brincadeira daqueles colegas desconhecidos, até esta tomar proporções difíceis de alterar.

Um dia, Daniel decidiu levar a brincadeira longe de mais. Num fim-de-semana, reuniu-se na casa de Fred: um amigo, especialista em informática e convenceu-o a entrar no perfil de Lília no Facebook para gozarem um pouco com ela. Mas as ideias saíram do controlo: Fred começou por alterar os dados de acesso e depois decidiu pegar numa das muitas fotografias que Lília continha na sua página e modificou-a recorrendo a um programa de edição de fotografias.

Num abrir e fechar de olhos, o perfil da colega foi invadido por piadas e comentários insultuosos, o que apanhou Lília de surpresa. Por mais que tentasse aceder à sua conta os dados de acesso davam sempre errados e ela começava a desesperar por não saber o que estava a passar-se e por já quase toda a escola ter visto as publicações, piadas e comentários que constavam na sua página. Precisava de apagar tudo, mas não sabia como fazê-lo.

O ambiente na escola tornou-se insustentável – num ápice – Lília passou a ser alvo de gozo, por parte de todo e qualquer aluno, de piadas e comentários mal-intencionados que eram lançados para o ar sempre que passavam por ela. Para além disso, passou a viver rodeada dos mais diversos burburinhos. Tentou procurar apoio nos amigos e colegas com quem sempre tinha convivido e em quem confiava piamente; mas, parecia que todos tinham sido enfeitiçados pelos novos colegas.
Lília não demorou muito tempo a isolar-se dos colegas perante a vergonha que estava a passar, começou a faltar às aulas, nos intervalos sentava-se sozinha na sala de convívio. Na hora do almoço, almoçava sozinha a um canto, enquanto se ouviam gargalhadas à sua volta. Para piorar ainda mais as coisas, alguns dias mais tarde, começou a receber mensagens escritas vindas de um anónimo no telefone com piadas alusivas aos conteúdos que eram partilhados no seu Facebook: agora hackeado.

Sentia-se perdida, sem saber o que fazer, como reagir, com quem falar. Desligou o telefone e continuou a esconder a situação da sua família, a quem deveria ter pedido ajuda. Pouco tempo depois, Lília acabou por adoecer: a repercussões da brincadeira parva e inconsequente dos colegas tinham-na levado a deixar de alimentar-se, não conseguia dormir, não conseguia sair de casa, tinha perdido a vontade de viver.

Foi através de uma professora que a sua família teve conhecimento de tudo o que se passava, e depressa decidiram actuar. O pai de Lília decidiu falar com um amigo que era especialista em informática de forma a descobrirem quem teria entrado na página de Facebook de Lília e os resultados não tardaram em chegar. Através do IP (número da Inernet) conseguiram descobrir uma morada, cujo endereço foi dar à casa de Fred e pelo final da tarde os pais de Lília estavam a bater-lhe à porta. Por entre explicações e interrogações mostraram-lhe quão mal tinha feito à filha em prol de uma simples brincadeira. Fred mostrou-se ciente de que tinha – realmente – ido longe de mais e no mesmo momento apagou todas as publicações insultuosas e repôs os dados de acesso, comprometendo-se a não repetir a brincadeira. Sabia que caso não cumprisse com o prometido viria a ter problemas com a polícia.

No entanto, apesar do problema ter ficado resolvido, Lília nunca mais foi a mesma jovem: divertida, alegre e descontraída. Transformou-se numa jovem deprimida, fechada e amedrontada, que dizia constantemente que já não queria viver, que preferia morrer. Os pais aconselharam-na a afastar-se da Internet e das redes sociais por uns tempos; mas o principal medo dela era encarar as pessoas.

Lília teve apoio psicológico durante longos meses, por forma a contrariar a maneira amarga e angustiante como ela encarava e olhava a vida. Foi uma luta bastante dura e demorada que só terminou vinte e quatro meses depois. Hoje ela é uma miúda diferente mais consciente que a sociedade em que vivemos não é perfeita e tem inúmeras falhas. Na realidade ninguém é perfeito, o ser humano foi feito para errar e falhar, caso contrário seríamos máquinas.

Hoje é um dia especial para Lília, na faculdade que frequenta decidiram trazer o Cyberbullying a debate e ela foi convidada a falar da sua experiência. Sente-se nervosa; mas confiante por poder inspirar e ajudar outras pessoas que tenham passado o mesmo que ela.

Quanto aos colegas que a marcaram e magoaram no passado, nunca mais soube nada deles. Na altura chegar a pedir-lhe desculpa por tudo o que a tinham feito passar e ela até acabou por perdoá-los; mas, infelizmente, nem sempre um pedido de desculpas consegue apagar as marcas deixadas na alma e na pele.

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Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"


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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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