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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

01
Jun16

"Laços de Sangue" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus
arr

Eu sabia que existias…

Tinham-me me dito que sim, ouvia falar de ti, tinham-me contado muitas histórias sobre ti quando era pequena, de como éramos cúmplices e inseparáveis, das brincadeiras que fazíamos, a ligação forte e especial que tínhamos, tenho pena de não me recordar de ti e desses tempos felizes contigo. Mas á parte disso sentia-o e pressinta-o e tinha que te procurar, que te encontrar, que te ver, que te tocar, que te sentir, foi com essa premissa que cresci e amadureci. Contra a vontade de meio mundo que insistia que eu esquecesse esse assunto e me diziam que tu tinhas ido para muito longe e que não querias saber de mim.

Acabei de me sentar na sala, com um álbum de fotografias no colo, como éramos felizes… Cada vez que me recordo daquele fatídico dia apetece-me fugir daqui para onde tu estás e nunca mais voltar. O nosso pai, a sair do quarto de malas prontas, pegar em ti ao colo e sair porta fora para nunca mais voltar, não disse nada, não se despediu, nada. Nem um simples adeus, um abraço, um beijo. Naquela altura, olha vai fazer amanhã precisamente quinze anos que te vi pela última vez, deves estar um homem feito. Naquela altura, não percebia porque é que o pai tinha que ir embora sem se quer se despedir de mim ou da mãe e levar-te com ele, porque é que não podias ficar comigo e com a mãe, foram dias e dias de tristeza, dor, sofrimento e angústia. A mãe, não parava de chorar, deixou de comer e entrou em depressão, morria de saudades tuas e dizia que tinha o coração desfeito. E eu passei dias e dias a fio a chamar por ti, a perguntar por ti e porque é que te tinhas ido embora, fazias-me falta, gostava de brincar contigo, as brincadeiras sem ti já não eram as mesmas nem tinham a mesma graça, com o tempo aprendi a brincar sozinha, a ser sozinha, fui-te quase esquecendo até me habituar a não estares presente.

Numas férias de Verão, assim sem mais nem menos lembrei-me de ti, e algo mudou, pensei muito e estava determinada a saber de ti e a ir atrás de ti. Abdiquei de ir para a praia com os meus amigos, para te tentar encontrar, não me interessava se vivias longe ou perto de nós, eu tinha que te procurar e dava a volta ao mundo se fosse preciso. E num final de tarde conversei com a mãe, perguntei-lhe tudo o que há anos queria perguntar e saber, disse-me que o pai tinha emigrado e que provavelmente tu terias ido com ele. Não foi por isso que desisti, havia de chegar a ti. Falei com a avó São, sempre tive uma relação especial com ela apesar de já não nos vermos há anos, no início mostrou-se muito renitente em falar de ti e em dizer-me onde estavas, mas depois lá cedeu. Deu-me o teu número de telemóvel.

Que nervos e que ansiedade, andei 3 dias sem saber o que fazer, mal dormia, não conseguia sossegar, numa manhã de Domingo, ganhei coragem, peguei no pedaço de papel com o teu número e liguei, do outro lado uma voz doce, suave e meiga. Ao princípio mantive-me em silêncio, emocionada, não sabia o que dizer, como reagir, mas depois a emoção falou por si e estivemos quase duas horas ao telefone. Foi tão bom.

Uma semana depois, estava a embarcar no avião para ir ter contigo à Alemanha, não continha os nervos, passadas as duas horas de voo, entrei no aeroporto e mal te vi corri logo desenfreadamente para ti como uma criança a quem acabam de oferecer o brinquedo preferido. Abraçamo-nos e choramos durante longos minutos, tínhamos a palavra saudade escrita no olhar, a ausência desenhada na pele.

- A partir de hoje nunca mais nos vamos largar. – Disseste-me.

- Nem duvides!

Foram os três dias mais inesquecíveis da minha vida, andamos sempre juntos. Mostraste-me como era a tua vida, o que fazias, onde estudavas, conheci os teus amigos e toda a cidade. Revi o pai, a quem desculpei de certa forma o facto de nos ter separado, mas a quem nunca irei perdoar o que fez, os avós e todos os outros, mas eras tu a peça mais importante. E foram nestes anos todos os dias mais felizes.

Falaste com a mãe, que não conteve a emoção, arrepiava-me só de ouvir a sua voz trémula e o choro quase compulsivo de quem viveu todo este tempo sem um filho.

E agora acabo de receber notícias tuas:

   Vou voltar. As malas estão feitas. Apanho amanhã o primeiro voo da manhã.

E desta vez é para sempre.

Há encontros e desencontros que jamais se esquecem.

E foi...

 

Ana Ribeiro, autora do blog "Escreviver"

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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