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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

04
Out17

"E Se Fosse Comigo" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Chamo-me Pedro, tenho trinta e um anos e esta é a minha história. Uma história improvável e até algo inacreditável para muita gente; aliás, já se passou quase um ano e muitas pessoas continuam a desconfiar das minhas palavras, roubando-lhes credibilidade. Continuam a recair sobre mim todas as culpas, de uma situação que não fui eu que criei.

E se fosse comigo?
Era uma pergunta que fazia a mim próprio no passado, quando se falava do tema; não acreditando que no futuro iria ser eu próprio a vivenciá-lo da pior das formas.
Dizem que os homens não devem ser piegas, nem devem chorar porque isso deixa a nu as suas fragilidades: fragilidades essas que um homem não deve ter direito a ter e põe em causa a sua força e a forma como é visto pelos outros. A verdade é que as minhas lágrimas continuam cá, muito sinceramente, acho que já não tenho mais lágrimas para chorar. Mas se não tenho lágrimas como posso expressar a mágoa que sinto?
Sinto-me só. Abandonado. Sinto que tenho o orgulho ferido em mil pedaços. Há um ano que me tento recompor neste abrigo longe de tudo e de todos, tento reerguer-me e voltar a ser o homem livre, confiante e feliz que era, só não sabia que este seria um processo tão moroso e doloroso.
Há um ano tinha a S. ao meu lado, éramos felizes e a alma gémea um do outro, até tudo mudar de um momento para o outro. A S. começou a controlar todos os meus passos, horas de entrada e saída no trabalho, chamadas e mensagens recebidas e enviadas no telemóvel, pessoas com quem falava ou convivia dentro e fora do trabalho. Quando uma coisa não lhe agradava gerava discussões e conflitos entre nós. Criticava-me e criticava tudo o que eu fazia, nada a satisfazia. Tornou-se uma mulher desconfiada, fria e instável de todas as formas e maneiras. Quanto a mim limitava-me a virar-lhe costas e não reagir, estava cansado de gritos e de culpabilizações mútuas. Até à primeira agressão foi um passo, como não reagia à violência verbal, tentava forçar-me a reagir à violência física.
Cheguei a mostrar aos pais dela, as nódoas negras que ela me deixava no rosto: das bofetadas que me dava ocasionalmente e nos braços e pernas dos murros e pontapés que me dava, quando as coisas não eram feitas à sua maneira. Parecia que tinha o diabo no corpo. A mínima coisa fazia logo despoletar o seu lado zangado e enraivecido. Nunca quiseram agir, para eles até era um alívio que ela me agredisse e me fizesse sair da sua vida porque nunca tinham aceite o nosso namoro. Entrei em depressão profunda, ficava com suores frios sempre que saía do trabalho e tinha que regressar a casa, não sabia o que me esperava. E se tentasse reagir ela ameaçava-me com a polícia e até que me matava.
Era um tormento estar em casa, o amor que nos unia tinha desaparecido, já não tínhamos capacidade para conversar, para ser amigos, para sermos o que éramos. Tentei perceber as motivações da S., nunca obtive uma resposta, mas sempre suspeitei que ela tivesse outra pessoa na sua vida. Aos poucos fui perdendo a vontade de viver, de fazer as coisas que mais gostava com receio das reacções dela. Transformei-me num prisioneiro dentro da minha própria casa, era a única forma da S. estar estável e até meiga.
Foram seis longos meses, fechado entre quatro paredes: sem trabalhar, sem sair à rua e sem ver nem conviver com ninguém a não ser com ela, 24 sobre 24 horas por dia. Ela controlava tudo e todos, principalmente quem tentava falar comigo, não podia esconder-lhe nada e ela tinha que saber o conteúdo de todas as conversas e mensagens que eu trocava. Até me cansar daquela espera sem fim à vista e tudo voltar ao que era: às discussões, às agressões e aos conflitos. Naquela noite, a S. ultrapassou os limites e num ataque de fúria tentou asfixiar-me, agarrando-se firmemente ao meu pescoço, fui forçado a deixá-la inconsciente, em legítima defesa, se queria sobreviver e saí de casa. Fui à polícia e pedi ajuda.
A parte mais difícil? Fazer com que acreditassem em mim, num homem tão novo que em desespero se queixa das agressões da namorada. Houve um inspector que ainda zombou da minha situação, como se a realidade descrita não existisse e fosse desconhecida. Apesar de ser um homem, tenho tanto ou mais direito de ser protegido como uma mulher. Contactaram uma associação que protege vítimas de violência doméstica e desde aí vivo neste abrigo, dentro de uma espécie de bolha.
Não tem sido um ano fácil, na medida em que, optei por não contar nada a ninguém da minha família; apenas os pais da S. sabem e ao fim de tanto tempo de sofrimento, conseguiram dar-me razão. Mostraram arrependimento por nunca me terem ajudado e nunca terem acreditado em mim, e pediram desculpa pelas atitudes da S, posso perdoá-los; mas a ela ainda não me sinto preparado, é imensa a dor que estilhaça no meu peito, foi demasiada a humilhação. Sei que faço falta aos meus, mas também sei que ainda não estou pronto para regressar aos braços deles, apesar da vontade e da saudade serem muitas.
Sei que um dia irei conseguir deixar esta fase menos boa para trás e nessa altura vou conseguir levantar-me mais forte. Até lá… cada dia é uma lição de vida.
 
Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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