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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

10
Mai17

"Almas Raras" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

Almas

Estou aqui sentada, na esplanada do café que frequento desde os tempos do Secundário. Quando era uma miúda diferente: alegre, espontânea, divertida; mas, principalmente feliz. Estou aqui desde que o café abriu, à minha frente tenho apenas uma simples chávena de café vazia, já sorvi todo o seu conteúdo mal me sentei. E o cinzeiro que contém somente duas beatas a esfumarem-se em cinzas.
Hoje madruguei, mais uma vez, como costumo fazer há alguns dias; como uma espécie de ritual. Saí de casa pela madrugada, vestida com a primeira roupa que encontrei no armário, a boina de sempre na cabeça, as botas grosseiras: como está sempre a dizer a minha mãe adoptiva e sentei-me à porta do café. De auscultadores nos ouvidos a ouvir a música pesada retro com que mais me identifico. Apeteceu-me chegar cedo para poder ficar ali, sozinha, embrenhada nos meus pensamentos. Sem ninguém a tentar ser capaz de controlar o que penso, o que visto, o que faço, porque faço. Só eu…
Há meses que me sinto literalmente sozinha neste mundo. Os meus pais e a minha família não querem saber de mim, compactuaram com a ideia de que eu estava muito melhor numa instituição e assim eles não tinham com que se preocupar. Não tinham uma filha para cuidar. Não tinham responsabilidades. Limitaram-se a seguir com a sua vida para a frente. Deixaram de existir para mim. 
Tenho bons amigos, é verdade; mas às vezes canso-me deles. Não pensamos da mesma forma, não temos os mesmos ideais, os mesmos gostos, a mesma maneira de pensar, ser e estar; por isso, na maior parte das vezes afasto-me e isolo-me. Eles irritam-me. Tive um namoro, mais ou menos sério, durante uns meses; até que, um dia descobri que o gajo me traía com uma das minhas melhores amigas mesmo debaixo do meu nariz. E eu completamente na ignorância. Senti-me tão mal, tão estúpida. Acabei tudo com ele e com aquela que dizia ser a minha melhor amiga. Ela farta-se de me enviar mensagens escritas e nas redes sociais; mas eu ignoro. Um dia vai cansar-se de tentar construir uma coisa que foi ela que ajudou a desabar.
Estou há dois meses numa família de acolhimento. Até são simpáticos e afáveis; mas insistem em  roubar-me aquele espaço que preciso que seja só meu. O casal tem uma filha mais nova que mais parece uma lapa. Anda sempre atrás de mim para todo o lado, como se eu tivesse algum interesse em brincar com bonecas. Entra no meu quarto e nem bate à porta, já começo a fartar-me. Aliás, já planeei várias vezes a derradeira fuga; mas depois acobardo-me e nunca concretizo. Nunca entendi porquê…
O fresco da madrugada provoca-me uma ardência na alma, e dor em sítios que ninguém imagina. As cicatrizes de que sou feita rasgam-me a pele. No ano passado, ainda na instituição, tentei acabar com a vida. Estava farta disto. Da vida. Das pessoas. Do mundo em si. O que andava cá a fazer?
Primeiro tomei uns comprimidos que encontrei na Farmácia da instituição; mas não fui forte o suficiente e mantive-me por cá. Estive internada uns dias, fizeram-me uma lavagem aos estômago e sobrevivi. Meio ano mais tarde, peguei num x-acto e tentei cortar os pulsos, ainda sinto as cicatrizes salientes, ainda me doem. Mais uma vez falhei e continuo cá, sem vontade. 
Dirijo-me à mochila e tiro um maço de tabaco para fumar mais um cigarro e de repente cruzo-me com uns olhos negros.
– Desculpa, tens um cigarro?
-Tenho sim!
Passo-lhe o cigarro.
– Sou o Rafa! – Diz-me ele.
– Jéssica!
– Já estou há vários minutos a observar-te. Estás aqui há imenso tempo, não estás?
– Desde que abriu…
– Posso sentar-me?
Assenti e partilhamos mesa. Num ápice começamos a partilhar histórias. As nossas histórias. Histórias tão comuns que me fizeram, finalmente, perceber que não era única. Havia pessoas com histórias idênticas à minha. Simpatizamos um com o outro e marcamos um novo café, num novo espaço para dali a uns dias.
Talvez o Rafa seja o recomeço que tanto procuro. Termino o cigarro, pago a conta e abandono o café. Acabei de perceber que ainda há muita vida para viver.

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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