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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

02
Dez17

"Choro"

João Jesus e Luís Jesus

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Agarrou numa cebola. Na melhor que via no seu cestinho feito de madeira.

Tirou a sua melhor faca da gaveta e começou o trabalho.

Devagarinho cortava a cebola em pedaços pequenos, atirando-os de seguida para a panela.

Os olhos ficaram cada vez mais molhados e depressa começaram a deitar lágrimas.

Mas não era por causa da cebola! Ela cortava a cebola para quem a visse, não suspeitar. 

Chorava da vida. Chorava de todos as coisas más que aconteciam. Precisava de chorar.

A cebola já tinha sido cortada. Agarrou noutra, precisava de deitar tudo cá para fora. Precisava de chorar mais.

Acabou a segunda cebola. Já lhe doiam os olhos. Resolveu parar.

Deitou o resto para a panela e colocou azeite, deixando-a no fogão, para ferver.

Chorar fez-lhe bem. Sentia-se melhor. Mais leve.

De repente entrou o marido pela cozinha.

- O que estás a fazer? - Perguntou ele com a sobrancelha arqueada

Limpou as lágrimas com a manga.

- Nada. Só estou a fazer o almoço. - Mentiu

- E essas lágrimas? 

- Oh! Nada! Só é a cebola. - Sorriu

 

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24
Nov17

"Continuar"

João Jesus e Luís Jesus

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Sentou-se na outra ponta do pavilhão. 

Sentou-se onde quase ninguém a via. Onde não reparavam nela.

Cruzou as pernas e colocou os cadernos e os livros de Ciências em cima destas. Tinha teste daqui a uma hora e precisava de rever a matéria.

- Ahahaha! Olha para aquela ali! - Gritou uma rapariga no fundo do pavilhão

Muito devagar, espreitou por cima dos óculos para ver a autora daquela fala. Pff! Era a mesma rapariga de sempre. Aquele que todos eram amigos dela.

- A estudar, Tartaruga? - Perguntou a rapariga, quando se aproximou dela

Ela olhou discretamente para ela.

- Deixa-me em paz. - Disse baixinho

A rapariga riu-se para as suas amigas.

- Não ouvi nada! Repete se tiveres coragem! - Disse a ela a altos berros para que todos a ouvissem

Ignorou-a. Continuou a olhar para os seus apontamentos.

- Não sabes que é falta de educação não responder a uma pergunta? - Picou

- Não se a pergunta for de mau gosto. - Respondeu-lhe, muito corada

A rapariga ficou pasmada.

- Bem, vamos deixar a Tartaruga aqui a estudar. - Revelou - Hum, apenas quero ver qual é a matéria que vai sair para o teste.

Antes que pudesse reagir, a rapariga arrancou-lhe o caderno das mãos e levantou-o no ar. 

- Que letrinha tão bonita! Olha as folhas a serem puxadas para o chão.

Muito rapidamente, rasgou uma página do caderno. Atirou-a para o chão e riu-se com as amigas.

- Pára! - Gritou-lhe

As outras rasgaram mais algumas páginas e quando deram por si, já não restava nada do caderno.

- Xauzinho Tartaruga! Bons estudos! - Disseram maliciosamente e desapareceram

Correu para as folhas rasgadas aos pedaços no chão. Sentia-se triste e enervada.

Dos seus olhos saiu uma lágrima. Passou a manga nos olhos para a secar, pois não queria que a vissem chorar.

Respirou fundo e agarrou nas folhas rasgadas. Talvez ainda tivesse arranjo.

 

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08
Nov17

"Destinos (des)Cruzados" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Tinha chegado a hora do adeus, numa manhã chuvosa e fria de Outono. Acordou apressado, o avião partia dali a dez minutos e ele tinha mesmo que se despachar, mas parecia não ter pressa para sair. Naquele dia não havia nada que o fizesse sorrir, que trocasse o silêncio que ele sentia pela alegria dos últimos dias, parecia que ainda sentia o perfume dela em si, nas suas roupas, por toda a casa. Pintado nas paredes, desenhado nos lençóis da cama, em cada divisão. Musicado na sala de jantar onde todas as noites dançavam ao som da mesma música. O sabor dos lábios dela nos seus, naquele último beijo que trocaram. Lembra-se e soletra e sussurra o nome dela… S-O-F-I-A. Que ecoa no ar em cada pedaço de céu.

Recorda, a sua essência, a textura e suavidade da sua pele, o toque, as formas do seu corpo.

Só voltariam a ver-se dali a alguns meses quando o Sol voltasse a brilhar e a Primavera estivesse de regresso, estavam separados pelo imenso Oceano Atlântico, quase em lados opostos do mundo. Nesse curto espaço de tempo, nessa distância sem fim à vista tentariam desenhar a saudade que iriam sentir um do outro. Tudo o resto ficaria bem guardado a sete chaves até voltar a fazer sentido.

As saudades já eram mais do que muitas. Impossíveis de descrever. De viver. Tinham vivido aqueles últimos dias com grande intensidade, o amor que sentiam um pelo outro tinha renascido, tinha reaprendido novamente o verdadeiro sentido do amor.

Desde o Verão que não se viam, que não se tocavam, que não olhavam um para o outro olhos nos olhos. Que o espaço naquela casa não ganhava outra vida, outra cor, que a almofada ao lado da sua, na cama, não era preenchida. A presença de Sofia fazia-lhe falta.
No aeroporto, Sofia já esperava pelo avião na sala de embarque, parecia ansiosa pela chegada de Luís, ainda não tinha parado de o procurar por entre a multidão de pessoas. Mas nada.

Luís, comia a torrada enquanto conduzia a alta velocidade pelas ruas da cidade, tinha cinco minutos para chegar ao aeroporto. Chega finalmente ao aeroporto um minuto depois da hora marcada, o avião acabava de partir levando Sofia para bem longe, Luís olha pela janela para aquele ponto branco no céu. Tinha falhado, nem tinha conseguido despedir-se.

…Muita coisa tinha ficado por dizer.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger "Escreviver"

26
Out17

"Complicado"

João Jesus e Luís Jesus

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 Puxou a cadeira para trás e sentou-se. 

Espalhou aquilo tudo pela mesa. 

Prendeu o cabelo, aquilo ia levar algum tempo e ia ser devastador! 

Abriu cada carta, uma a uma, passando os olhos em todos os detalhes de cada carta. 

Deixou cair a cabeça na mesa. Estava tudo tão complicado desde que o seu marido morrera. 

Contas enormes que eles não podiam pagar chegaram! A educação dos seus dois filhos ficou cada vez mais cara. Não tinha um cêntimo na carteira.

Cada carta dizia o mesmo, que a luz, a água, o gás iria ser cortado. Que iriam ter de evacuar a sua casa. Tantas contas, tantas complicações.

Limpou a cara com as mãos. Lágrimas rolavam pela sua cara. 

Eram valores absurdos! Não podia pagar nadinha! Nem com empréstimos! Iria demorar séculos para pagar tudo.

O seu estômago roncou pela centésima vez. Não tinha comido nada nesse dia. Deu tudo ao seu filhos, que de dia para dia ficavam cada vez mais magros.

Levantou-se. Agarrou em todas as cartas e atirou-as para a lareira. Queimaram muito depressa.

De repente, a luz apagou-se. 

Caiu ao chão devastada. Tinham acabado de cortar a eletricidade.

 

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20
Out17

"Ninguém"

João Jesus e Luís Jesus

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 As patas batiam na estrada molhada.

Mais um carro passava perto de si. Mais alguém que não se importava com ele.

Abandonado. Ali na estrada. Caminhava apenas sempre em frente, em espera que alguém o encontrasse.

Sentia o estômago roncar cada vez mais. Tinha frio. Estava cansado.

Queria uma casa. 

Queria alguém que lhe desse carinho, que se importasse com ele. Queria alguém que não fosse como o seu antigo dono.

Dono? Será que lhe podia chamar isso? Nunca gostara muito dele, mas nunca pensara que ele o deixaria ali, sozinho. 

Mais outro carro passava pela estrada. Viu uma menina pequena espreitar pela janela.

Parou e olhou para ela. Ela sorriu e acenou.

A sua cauda abanou um pouco. Queria estar com aquela menina!

Mas o carro não parou, continuou a andar, como todos os outros. 

Sentiu um frio enorme por dentro. Estava triste! Revoltado com o mundo.

Continuou a andar pela estrada, molhada, suja e vazia. 

Vazia como ele se sentia por dentro.

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

letrasaventureiras@sapo.pt

Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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