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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

14
Mar18

"Pessoas Como Tu" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Precisava de uma pessoa como tu: De olhar profundo, sorriso fácil, maneira de ser e estar contagiantes, que olhasse para mim como a mulher que sou.

Toda a gente me dizia que o que eu precisava mesmo era de encontrar uma pessoa como tu, para me completar, não me sabiam dizer onde te conseguir encontrar, diziam que isso tinha que ser eu a fazer literalmente sozinha, mas insistiam para eu te procurar. E procuro-o aonde?

“Procura-o dentro de ti. É lá que o vais encontrar”.

Dentro de mim? Porquê? Continuava sem perceber e sem conseguir encontrar essa pessoa como tu, como é que te podia procurar nos confins do que há dentro de mim?
E um dia descobri a resposta… sozinha.
Decidi desconstruir-me e acredita que me surpreendi porque cada fragmento de mim encaixava perfeitamente em ti. Peguei no meu coração e do seu interior retirei a tua sensibilidade, depois fui buscar o teu melhor sorriso e juntei-lhe o maior pedaço da minha felicidade. No espelho do meu olhar observei o teu lado mais emocional e atencioso, através dos teus olhos fui em busca do meu lado mais calmo.
Dás-te a tanto trabalho!, disseste-me tu dando uma forte gargalhada.
Juntei esse teu lado alegre, brincalhão e bem-disposto com o meu lado mais extrovertido, combinavam tão bem.
De seguida, peguei na tua mão esquerda, e li nas tuas linhas da vida o meu desassossego, e vi alguns dos meus medos também, onde estão as tuas fragilidades reencontro uma boa parte das minhas, acho que faz parte de quem se completa por completo. Na mão direita, encontrei o respeito que faz parte daquilo que somos, a força que dizem que trago comigo e também aquele abraço apertado que só tu sabes dar.
Deite a mão, sabias que sempre adorei o teu toque, o momento em que a pele se funde? Encaixa bem com a segurança que me transmites e com alguma inquietação que levas sempre contigo.
A tua voz. Na tua voz vi os compassos do meu respirar, ouvi as notas daquela música que me pediste um dia que não parasse de tocar.
E beijaste-me.
Acabava de encontrar a pessoa como tu que tanto diziam para eu procurar. Existimos mas nunca por inteiro, falta-nos sempre o essencial.

Porque pessoas como tu… Não são mais do que pessoas como nós. 

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

07
Mar18

"Life Is A Journey" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Por vezes a vida prega-nos partidas, sem estarmos à espera. A rotina e o contacto com as mesmas pessoas todos os dias começam a cansar, o ser sempre tudo igual e tão mecanizado, há todo um frenesim que nos desassossega, o cansaço e a falta de paciência e de descanso acumulam-se, o stress do dia-a-dia inquieta-nos a alma. A falta de tempo para as coisas que gostamos de fazer torna tudo mais difícil e à nossa volta o sol parece querer deixar de brilhar. Fica tudo cinzento e sem brilho.

Por vezes encontro-me neste estado de espírito, onde parece que quero e que me apetece tudo mas ao mesmo tempo não quero nem me apetece nada, acho que é exaustão. Exaustão de tudo e de nada, de necessitar de tempo e de espaço para respirar, para acalmar, para fazer outras coisas, para estar sozinha só comigo. Necessito muito desse tempo e desse espaço que por vezes sinto muito a sua ausência.

A vida é uma jornada. E a vida de adulto é uma seca e não nos traz vantagens nenhumas, é tão bom ser-se criança e viver num mundo só nosso onde não existe a palavra crise, onde ainda não se pensa em ter que resolver problemas todos os dias, onde não há rotinas pré-definidas, onde não há stress. É quando se começa a crescer que tudo começa a mudar, a nossa vida começa a ficar sem fôlego, começamos a ter responsabilidades chatas e a entrar numa espécie de labirinto diário do qual umas vezes sabemos sair para respirar e outras vezes não. Andamos, andamos, andamos, mas não saímos do mesmo sítio.

Viver. Essa palavra que contempla tudo e não contempla nada. O que é viver afinal? O que é que viver significa? Viver tem que se desconstruir nos seus fragmentos únicos e essenciais; viver é como andar de para-quedas, mergulhar no vazio de braços abertos e com o vento a balançar o pouco daquilo que somos.
Viver. Não são só momentos, pessoas, gestos, sentimentos e objectos. Viver. Tem que ser tudo. A vida. O mundo. Um todo. Nada.

E Ele.

Há sempre pessoas que conseguem mudar-nos e mudar a nossa vida por completo, até nestas alturas. Pessoas diferentes. Pessoas especiais. Pessoas que marcam e nos marcam incrivelmente. Bastam para isso gestos básicos, como uma simples gargalhada daquelas que eu adoro e que só ele consegue provocar em mim e simples 5 minutos de conversa. Sobre tudo e outras coisas. Sobre a vida e como fazer dela uma estrada única.

A vida é Ele. Ele é a minha vida. Não há vida sem ele.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

02
Mar18

"Ondas de Solidão" - Eça de Queirós

João Jesus e Luís Jesus

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Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão. 


Eça de Queirós, in 'Correspondência' 

28
Fev18

"Saber A Mar" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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Cruzamo-nos, naquele dia, junto à marginal. Eu estava ali de férias com os meus amigos, depois de um ano intenso na faculdade, e ele trabalhava na praia como nadador-salvador. Íamos distraídos cada um perdido na sua vida e acabamos por chocar um com o outro, pedimos desculpa, um ao outro, e seguimos o nosso destino. Mas aquelas férias nunca mais iam ser as mesmas, parecia que me tinha sido indiferente, mas não tinha.

Os olhares que nós trocamos, a expressividade e o verde água dos seus olhos, nunca mais me deixaram sossegar, queria vê-lo outra vez, não o conhecia, não sabia o seu nome, se vivia ali ou se também estava só de passagem, mas precisava de o encontrar. Queria saber mais sobre ele, apesar do mundo de incertezas em que estava rodeada.

Voltei à praia… sozinha. Inventei uma desculpa bem esfarrapada e deixei o resto do grupo a curtir uma bela tarde de mergulhos na piscina, só para o procurar. Estendi a toalha no areal, pus os óculos-de-sol e deixei-me ficar sentada perdida nas ondas do mar, no ciclo vicioso que era o mar a enrolar na areia. A praia estava cheia, não havia um espacinho livre para mais uma toalha, a areia estava a escaldar, o calor do sol apertava bruscamente, estava mesmo a apetecer-me um mergulho. Larguei tudo e desatei a correr para o mar, até que…

– Olá! Por aqui?

Era tudo aquilo que eu mais desejava, não precisei de o procurar, veio ele ao meu encontro. Apresentamo-nos, fiquei a saber que se chamava Luís Miguel, que tinha 29 anos e que todos os verões trabalhava naquela praia como nadador-salvador, para conseguir mais algum dinheiro. Ficamos ali sentados à beira-mar com as ondas a tocarem a pele, a conversar, falamos de filmes, de música, de leituras, da paixão pela praia e pelo bodyboard.

Seguiram-se dias inesquecíveis, o Luís conheceu os meus amigos e formamos um grupo, durante o dia estávamos sempre juntos na praia e depois de ele acabar o seu turno, a noite era nossa, todos os dias nos levou a um sítio diferente. Dei por mim a vê-lo perguntar-me quanto tempo iríamos ficar ali. Meu Deus!!!

Infelizmente faltavam pouco mais de 4 dias para o nosso regresso, e o Luís era tão porreiro, começamos a gostar um do outro assim do nada. Sabia que era um amor praticamente impossível porque iríamos acabar por ter que nos separar e íamos ficar longe um do outro, e não há amor que resulte à distância, provavelmente nunca mais nos iríamos ver. Mas quisemos arriscar, e passamos os últimos dias sempre juntos a namorar, eu gostava tanto dele, que já sentia uma bola no estômago só de pensar que teria que o deixar.

Na véspera do meu regresso, passamos a noite juntos na praia e envolvemo-nos, foi talvez uma das noites mais belas da minha vida, fomos um só. O Luís ofereceu-me um presente magnífico, disse-me que era para que nunca mais o esquecesse, como se eu o conseguisse esquecer, eu sabia que jamais o iria esquecer, um colar com um coração esculpido numa concha do mar que dizia: Para a Raquel com amor. É o meu amuleto da sorte, anda sempre comigo.

Regressei à minha vida, à faculdade. Uma semana depois o Luís fez-me uma surpresa e veio visitar-me, não me podia ter sentido mais feliz, já não estava a conseguir suportar as saudades que tinha dele.

Afinal de contas… Saber amar (só) é saber deixar alguém te amar.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

23
Fev18

"A Luta Pelo Teu Amor" - Sigmund Freud

João Jesus e Luís Jesus

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Há um ponto no qual não posso concordar contigo, Marty. Tu dizes que agora somos muito sensatos e o quanto tolos fomos no passado a lidar um com o outro. Eu concordo alegremente que agora somos sensatos o suficiente para acreditar no nosso amor sem quaisquer dúvidas, mas não teríamos chegado a este ponto se não fosse por tudo o que aconteceu entre nós antes. Foi a intensidade do meu desgosto, trazido pela muitas horas de sofrimento que tu me causaste há dois anos, que me convenceu do meu amor por ti. Hoje em dia, com todo o meu trabalho, e a luta por dinheiro, posição, e reputação, que tudo junto mal me dá tempo de sobra para te escrever uma carta afectuosa, já seria quase impossível chegar a essa convicção. Não desprezemos os tempos em que para mim um dia só teria sentido se recebesse uma carta de ti, quando uma decisão tua significava uma decisão entre vida e morte. Eu não sei realmente que mais poderia ter feito nessa altura; foi um período de luta muito difícil, e finalmente, de vitória, e só após disso tudo ter terminado consegui encontrar a paz interior para trabalhar em torno do nosso futuro. Nesses dias eu estava a lutar pelo teu amor como estou agora a lutar pela tua pessoa, e tens que admitir que tive que trabalhar tanto para atingir esse objectivo como estou a trabalhar agora para atingir este outro. 


Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 7 de Janeiro 1885 (excerto) 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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