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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

11
Out17

"Não é verdade que..." - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Não é verdade que te perdi. Não acredito. Não é possível que tenha ficado sem ti e que te tenha deixado partir para sempre, sem um último adeus. Uma despedida digna, que me reconfortasse o corpo, a alma e o coração. Um volto já, um até breve, algo que me dissesse que irás voltar um dia, que nos iremos voltar a ver e a tocar, como tanto quero e desejo. Como tanto desejamos, os dois. Foi triste, dura e fria a nossa separação.

No banco daquela sala de embarque ficou o último abraço, o último beijo, o último olhar, o último toque, as nossas lágrimas, o nosso amor. Perderam-se as palavras, o que queríamos realmente dizer um ao outro, os sorrisos, a felicidade inexplicável, o sentido da vida. Os planos a dois, os sonhos a conquistar e os objetivos a realizar. Silenciei-me de ti.

Aqui, no nosso jardim das Camélias, a minha flor favorita, quantos e quantos ramos de doces camélias me ofereceste, boas recordações que deixaste e que sabe sempre bem lembrar. Olho a imensidão do céu limpo e de um azul que me faz pensar sempre em ti, que me acalma e que ao mesmo tempo me desassossega. Era assim que gostavas de olhar para ele, comigo a teu lado.

Sentada debaixo daquele sobreiro antigo e gigante, no cerne do jardim, no pouco que resta, da tua frescura, sinto o vazio em mim, a dor da tua ausência que trespassa o meu peito, atravessa o meu coração e me dilacera por completo. Ainda ouço a tua voz ao sabor do vento, o teu perfume no aroma das flores que me rodeia, o contorno dos teus braços e do teu corpo a balançarem em mim. Aquele teu sorriso de cavalheiro conquistador, tão doce e meigo, o sabor dos teus lábios como terra acabada de humedecer. Que saudades, eu tenho de ti…

Sabes uma coisa?

Uma folha de papel velha e amachucada acaba de vir ao meu encontro, trazida pelo vento.

Abri-a e no interior podia ler-se:

Voltarei para ti!

Sorrio. É a tua presença. Quem sabe, talvez, um simples sinal teu que por breves instantes me devolve à vida. Acordo. E encontro-te ao meu lado, a sorrir para mim. Afinal de contas, não passou de um sonho mau. Não é verdade que…

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

26
Set17

"Fração de Segundo"

João Jesus e Luís Jesus

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 Entrou na sala, onde ela estava deitada, muito aconchegada. 

Correu para ela e suspirou quando a viu. 

Ali estava ela. Fraca. Quase morta. A sua filha estava quase a partir.

- Oh meu amor! - Chorou ele, colocando o dedo na sua mãozinha pequena

A bebé pareceu ficar mais descansada e apertou o dedo do pai com a força que lhe restava.

Sem conseguir evitar, ele chorou. As enfermeiras colocaram-lhe uma mão nas costas, mas ele ignorou-as. Elas não podiam salvar o seu maior tesouro.

Olhou para a cara da sua filha. Ele via que ela estava a sofrer. 

De repente, ela abriu os olhos. Olhou para o pai, com os seus pequenos olhos castanhos. Sorriu um pouco, mas a cara foi-lhe tomada por um esgar de dor.

As enfermeiras olharam para o pai e depois para a filha. Estava na hora.

Enquanto chorava cada vez mais, abraçou-a e beijou-lhe a testa. Ela fora a melhor coisa da sua vida.

A sua cara ficou mais relaxada e as máquinas começaram a apitar. Já tinha partido.

Ele fora atacado por um mar de lágrimas. Não conseguia controlar. 

Mas de repente, numa fração de segundo, ouviu algo estranho. Um suspiro, como a sua filha fazia, perto do ouvido.

Ela não tinha partido. Estava consigo. Para sempre.

 

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24
Set17

"Olhos"

João Jesus e Luís Jesus

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 Sorriu e encantado, olhou para os olhos dela.

Ficou hipnotizado com o que viu. Ficou estático admirando a beleza dos olhos dela.

Eram azuis. O azul mais belo que já vira.

Aquele azul que dava vontade de entrar e nadar neles. Eram um azul profundo, como os oceanos.

Era um azul que o fazia sentir livre com ela. 

Via tudo o que queria ver naqueles olhos brilhantes. Via felicidade, amor, aventura, loucura, perigo e um pouco de dor. 

Os olhos dela fixavam os dele, admirada por o que ele fazia.

Então, ela limitou-se a olhá-lo também.

Os seus olhos castanhos eram bonitos.

Ela sentia-se protegida. Eram uns olhos fortes, sérios mas também cómicos, eram tanta coisa ao mesmo tempo.

Ela ficava confortável ao olhar para eles. Davam-lhe a sensação de calor. Era bom.

Ela via aventura e loucura nos olhos dele. Também doçura, mas ele conseguia esconder bem isso.

Ambos queriam tentar algo. Queriam aprender um com o outro.

Aproximaram-se e olharam-se mais uma vez. Sorriram e beijaram-se.

 

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20
Set17

"Meu Amor de Longe" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Desde muito cedo que dizia que, jamais, amaria à distância. O Amor é – essencialmente – presença constante entre duas vidas e não resulta à distância. Pensava eu… Mas a forma como eu olhava para o amor ia mudar drasticamente durante o programa Erasmus na faculdade.

 
Eu e as minhas melhores amigas tínhamos sido destacadas para a cidade de Lyon, em França, para participarmos numa campanha de voluntariado. Estávamos todas entusiasmadas, principalmente porque a Jennifer andava a tentar convencer-nos a fazermos uma escapadela a Paris a meio da semana. Sim, era uma tremenda loucura. Como é que iríamos fazê-lo sem darem pela nossa falta? Que desculpa iríamos dar? Confesso, estava aterrorizada; mas ao mesmo tempo não queria pensar muito no assunto – pelo menos para já -, queria aproveitar tudo ao máximo e divertir-me quando chegássemos a França logo veríamos.

 

Tiramos os passaportes, fizemos as malas e no dia marcado, apanhamos um táxi e rumamos ao aeroporto. Nenhuma de nós tinha pregado olho. Fomos a viagem toda a conversar, o que fez com que nem déssemos pelo tempo passar, quando trocávamos a última ideia estapafúrdia, o comandante avisou que íamos aterrar. Que excitação. Apanhamos um táxi e rumamos ao hotel, onde um representante da associação para a qual íamos trabalhar já nos esperava. Depois de pousarmos as bagagens no quarto e de descansarmos uns minutos, entramos numa carrinha e fomos à associação, para conhecermos a equipa onde iríamos trabalhar. 
 
Foi nessa equipa que conheci o Oliver: um voluntário francês, que já trabalhava na associação há cerca de dois anos, era responsável pelos jovens que vinham de fora realizar voluntariado: jovens como nós. Simpatizei de imediato com ele porque se mostrou deveras simpático e disponível e à medida que os dias foram passando criamos uma ligação especial. Por coincidência, era ele que estava acompanhar-nos; por isso, passávamos horas a conversar. Falou-me do seu forte desejo de ser voluntário e de ajudar os outros e de como tinha descoberto a associação. Eu também lhe contei sobre a minha enorme paixão pela aventura e adrenalina. Foi uma das melhores semanas da minha vida, eu e o Oliver já não nos separávamos para nada e quando nos apercebemos estávamos apaixonados um pelo outro.
 
Sabíamos que não nos devíamos apaixonar porque iríamos ter que nos separar e não sabíamos quando nos voltaríamos a ver, mas a vontade dos nossos corações falou mais alto. A felicidade constante passou a ser a minha melhor amiga, até que a vida nos ofereceu de presente a hora da despedida. O nosso estágio tinha chegado ao fim e eu vivia num alvoroço, tinha a cabeça num corropio ambulante; se por um lado tinha saudades de casa, por outro lado não queria deixar o meu amor para trás: o Oliver. Chorei sozinha de véspera e passei com o Oliver a última noite juntos.
 
O dia seguinte, amanheceu chuvoso. O Oliver quis acompanhar-nos sozinho ao aeroporto, durante o percurso na carrinha não conseguia tirar os olhos do espelho retrovisor queria estar constantemente em conexão com ele. Foi a despedida mais dura de sempre, achei que o nosso amor nem sequer ia durar porque vivíamos longe. Nos primeiros tempos senti imensa falta dele e dos laços que nos uniam, não sabia viver sem ele e ponderei mudar radicalmente de vida, emigrar para Lyon para estar junto dele. Percebi através da dor da distância, a força de um grande amor.

 

Por entre saudades, vazios, desencontros e escolhas incertas; o melhor do amor: a surpresa do Oliver. Quando menos esperei estava à minha espera na faculdade, não queria acreditar que tinha aproveitado as férias para vir a Portugal ver-me. Senti que era possível renovar um amor vivido a quilómetros de distância.
 
Na última noite do Oliver ao meu lado, fomos surpreendidos com uma inusitada canção, um fado da portuguesa “Raquel Tavares” intitulado: “Meu Amor de Longe”. Entrelacei os dedos nos dele e abracei-o.
 
Ele iria ser sempre o meu verdadeiro Amor de Longe.
 
 
Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"
13
Set17

"Anoitecer de Ti" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Tocam as doze badaladas. Misturo-me no meio da imensidão, o céu ilumina-se de diversas cores, formas e luzes; o palco já está pronto para se fazerem ouvir as melodias que prolongarão a noite. A multidão saiu à rua, espalha-se felicidade, cruzam-se histórias e caminhos. Quebra-se a rotina, coloca-se a conversa em dia.

 
Naqueles curtos minutos, esqueço o mundo por completo e penso apenas em ti, deixando-me envolver por aquelas minúsculas luzes que me iluminam. Que fazem renascer o amor que ainda sinto por ti. Foco-me em ti: absorvida, desprendida, profunda. Aquele céu faz-me recuar a ti, quando o vimos juntos pela primeira vez, é uma memória ainda tão presente que dificilmente a consigo esquecer. Tu e eu ali: perdidos na noite fria e escura e nos braços um do outro, envolvidos por toda aquela aura. Parecia um momento eterno.
 
Ainda te sinto e ainda vejo um pedaço pequeno de ti em cada uma daquelas luzes. Sinto-te aqui, como se ainda existisses. Na verdade, ainda existes em mim. O arco-íris era a melhor característica da tua personalidade, brilhava com todas as cores, até mesmo com o preto e o cinza. Conseguias abrilhantar toda a gente que estivesse à tua volta, foi o que me fez apaixonar por ti. Querer-te para sempre.
 
Por isso, estas noites em que o céu brilha e se pinta, são as melhores noites para poder ter-te novamente a meu lado, fazem-me lembrar tanto de ti…
 
Não sinto que te perco quando as cores se dissipam no ar, não sinto que seja uma despedida, nem um “Adeus”, é apenas uma forma de haver um próximo reencontro e ainda vai haver tantos.
 
Por momentos, alguém me toca no ombro, instintivamente viro-me para trás e o meu coração palpita. Pareces-me tu; mas lá bem no fundo sei que é apenas alguém que tem semelhanças com aquilo que tu eras. No entanto, essa pequena e vasta esperança acalma-me. Sorrio por saber que um dia irei voltar a sentir o teu toque tão perto. O Tomás abraça-me, há muito tempo que não nos encontrávamos. Dolorosamente, pergunta-me por ti. Desabafo e conto-lhe tudo. Ele pega-me na mão e reconforta-me. Diz-me que vai ficar tudo bem e que se precisar de alguma coisa estará sempre aqui para o que eu precisar e para me apoiar. Sorrio novamente. 
 
De repente, uma luz intensa cobre o céu, desviamos o olhar e deparamo-nos com uma estrela cadente. Percebi que eras tu, mostrando-me o quão feliz estavas por ter alguém que me apoie e por estar a tentar seguir em frente.
 
Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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