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Letras Aventureiras | Por João e Luís Jesus

De João Jesus e Luís Jesus, nomeados os mais jovens escritores portugueses em 2016.

26
Nov17

"Onde Há Inveja, Não Há Amizade" - Luís Vaz de Camões

João Jesus e Luís Jesus

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 Grande trabalho é querer fazer alegre rosto quando o coração está triste: pano é que não toma nunca bem esta tinta; que a Lua recebe a claridade do Sol, e o rosto, do coração. Nada dá quem não dá honra no que dá: não tem que agradecer quem, no que recebe, a não recebe; porque bem comprado vai o que com ela se compra. Nada se dá de graça o que se pede muito. Está certo! Quem não tem uma vida tem muitas. Onde a razão se governa pela vontade, há muito que praguejar, e pouco que louvar. Nenhuma cousa homizia os homens tanto consigo como males de que se não guardaram, podendo. Não há alma sem corpo, que tantos corpos faça sem almas, como este purgatório a que chamais honra; donde muitas vezes os homens cuidam que a ganham, aí a perdem. Onde há inveja, não há amizade; nem a pode haver em desigual conversação. Bem mereceu o engano quem creu mais o que lhe dizem que o que viu. Agora, ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo. E para muito pontual, perguntai-lhe de onde vem; vereis que algo tiene en el cuerpo, que le duele. Ora temperai-me lá esta gaita, que nem assim, nem assim achareis meio real de descanso nesta vida; ela nos trata somente como alheios de si, e com razão: 


Pois somente nos é dada 
para que ganhemos nela 
o que sabemos. 
Se se gasta mal gastada, 
juntamente com perdê-la, 
nos perdemos. 

Enfim, esta minha Senhora, sendo a cousa por que mais fazemos, é a mais fraca alfaia de que nos servimos. E se queremos ver quão breve é, 

ponderemos e vejamos 
que ganhamos em viver 
os que nascemos: 
veremos que não ganhamos 
senão algum bem fazer, 
se o fazemos. 

E, por isso, respeitando 

que o porvir tal será, 
entesouremos ; 
porque [ao certo] não sabemos 
quando a morte pedirá 
que lhe paguemos. 

Nunca vi cousa mais para lembrar, e menos lembrada, que a morte; sendo mais aborrecida que a verdade, tem-se em menos conta que a virtude. Mas, contudo, com seu pensamento, quando lhe vem à vontade, acarreta mil pensamentos vãos; que tudo para com ela é um lume de palhas. Nenhuma cousa me enche tanto as medidas para com estes que vivem na maior bonança, como ela; porque quando lhe menos lembra, então lhe arranca as amarras, dando com os corpos à costa; e se vem à mão, com as almas no inferno, que é bem ruim gasalhado: 

E pois todos isto temos, 
não nos engane a riqueza, 
por que tanto esmorecemos, 
e trás que vamos; 
já que temos a certeza 
que, quando mais a queremos, a deixamos. 

Gastamos em alcançá-la 
a vida; e quando queremos 
usar dela, 
nos tira a morte lográ-la; 
assim que a Deus perdemos 
e a ela. 

Luís Vaz de Camões, in "Cartas" 

15
Nov17

"Second Chance" - Ana Ribeiro

João Jesus e Luís Jesus

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 Eramos os melhores amigos. Quase unha com carne. Não nos separávamos para nada, parecia que havia qualquer coisa entre nós, que ainda hoje não sei explicar muito bem o que era, que fazia com que tivéssemos que estar todos os dias em contacto. E quando não podíamos estar, trocávamos milhares de mensagens escritas. De certa maneira ele era o meu pequeno vício. Partilhávamos um com o outro um pouco de tudo, nada ficava por dizer, por contar, por partilhar, entre nós jamais havia segredos. Confiávamos plenamente um no outro. Ele era o meu porto seguro, o meu escudo e algumas vezes o meu pequeno muro das lamentações. Compreendíamo-nos muito bem, bastava um olhar, um sorriso, um toque, e tínhamos uma boa dose de paciência um com o outro.

Chegamos a partilhar as casas um do outro, a jantar à mesma mesa, os meus pais gostavam muito dele. Todas as noites tínhamos o ritual de fazer uma chamada um para o outro antes de irmos dormir, por nenhuma razão em especial até porque passávamos os dias inteiros juntos, apenas para uma troca saudável de algumas boas gargalhadas e para desejarmos “Boa noite”.
Havia quem dissesse que, nós eramos únicos, porque nós fazíamos coisas que mais ninguém tinha coragem de fazer. Dávamos valor aos pequenos gestos… como este.
Comecei a gostar dele, um gostar diferente do gostar de amigo do peito. Um gostar do fundo do coração. Porque a amizade também é amor. As coisas entre nós mudaram, e mudaram muito, estávamos apaixonados, e transformamo-nos em amigos coloridos. Um dia M. revelou um pedaço de si que eu não conhecia e que não esperava, disse-me que não podíamos continuar a ser amigos porque eramos de mundos completamente diferentes. Fiquei sem perceber a razão daquela mudança, passei dias a pensar sem chegar a uma conclusão, até ao dia em que ele acabou tudo com uma simples mensagem. Ao que parecia, tinha namorada e não queria perdê-la por minha causa, então era melhor pôr um ponto final em tudo o que tínhamos. Fiquei arrasada, jurei jamais o perdoar, senti-me enganada, usada e magoada, tinha confiado numa pessoa que não era mais do que uma mentira. Perdemos o contacto. Nunca mais falamos. Parece que é feliz ao lado da P.

No entanto, um dia mais tarde perdoei-o em prol dos bons velhos tempos. Tinha saudades dele. Ganhei coragem e marcamos um café.

 

Texto de Ana Ribeiro, escritora e blogger do blog "Escreviver"

29
Set17

"Malmequeres"

João Jesus e Luís Jesus

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Subiu a colina e olhou para o horizonte.

Iria chover em breve. Tinha de se apressar. 

Em cima daquela colina, havia a coisa mais importante para ela. 

Um campo. Um campo cheio de malmequeres amarelos, líndissimos. Mas não era só essa a razão de ela gostar tanto daquele campo.

Ali, morava a sua melhor amiga. Chamava-lhe Inês. Era um nome bonito.

Correu para o meio do campo. Tinha de ser uma visita rápida, pois ia chover.

Ela podia ter ido visitá-la mais cedo, mas não tinha tempo. Agora nunca tinha tempo, por causa da escola.

Ela detestava a escola! Chamavam-lhe nomes feios que a faziam chorar. Diziam que ela vivia no mundo dela. Que era tótó.

A sua melhor companhia, era a Inês, pois ela compreendia-a.

Entrou no campo de malmequeres e passou a mão por alguns. Gostava de sentir os aromas do campo e de tocar na natureza.

 De repente, viu os cabelos ruivos de Inês escondidos entre as flores. Ela parecia estar sentada. A chorar.

Devagar, aproximou-se dela.

- Inês? - Sussurrou ela

A Inês virou-se para ela. Estava pálida, magra e parecia muito infeliz.

- Que se passa? - Perguntou ela, sentando-se perto dela

Inês continuou a chorar.

- Porquê é que não vieste visitar-me? Pensava que éramos amigas. - Chorou ela

- Mas eu vim-te visitar hoje! - Desculpou-se ela, colocando a mão no ombro dela

- Sabes que mesmo que venhas todos os dias, eu vou ter saudades tuas. E tu já não vinhas cá cima há muito tempo! - Disse ela apenas um pouco mais animada

- Estou muito ocupada com a escola, agora. - Revelou ela

- Eu percebo, Margarida. - Sorriu ela, levemente

Margarida sorriu e abraçaram-se. 

- Tinha tantas saudades tuas. - Disse Inês

- E eu tuas. - Arrancou um malmequer

 

 

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João Jesus

Chamo-me João Jesus. Sou escritor e blogger! Sou português e habito num concelho do distrito de Vila Real! A leitura, a escrita e o filme são as minhas grandes paixões.

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Luís Jesus

Chamo-me Luís Jesus. Sou ilustrador e blogger. Adoro ilustração e tecnologia. Apesar de ser ainda novo, o meu sonho é licenciar-me em engenharia informática e visitar países como a Austrália, Singapura, China e EUA.

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